José Paulo Fafe
José Paulo Fafe 17 de maio de 2016 às 19:50

As culpas de Dilma

Ninguém duvida de que o desenrolar da operação Lava Jato foi crucial para a queda da Presidente Dilma Rousseff. Isso, a cada vez mais periclitante situação económica brasileira e até o crescente desgaste que os anos de gestão de um PT descredibilizado motivaram na sociedade brasileira.

Mas arrisco-me a dizer que também a própria Dilma e a sua incapacidade em articular politicamente tiveram um papel determinante no seu próprio  afastamento.

 

Ao longo destes seus cinco anos e meio no palácio do Planalto, Dilma não ousou criar ou conquistar o seu próprio espaço político. Optou, isso sim, pelo contrário em manter-se refém de uma estratégia em que o protagonista era Lula e o único objectivo o de saciar o voraz apetite de uma vasta clientela que, sentada à mesa de um apetitoso orçamento, rapidamente trocou ideais e princípios ideológicos por venais e fisiológicos comportamentos que só tinham um fito - o de enriquecer e perpetuar-se "ad eternum" no poder.

 

Em finais de 2014, logo após a sua reeleição, Dilma teve todas as condições - e principalmente o capital político… - para fazer o "seu" Governo e, após uma campanha que dividiu quase ao meio a sociedade brasileira, mostrar que possuía capacidade para ser um "factor de unidade", promovendo e estimulando consensos. Ao fazer isso, Dilma teria mostrado não estar "refém" de um partido que nunca a sentiu como sua e apenas a suportava e, também, contribuiria para inverter uma tendência de rejeição que começava já então a atingir níveis perto de uns perigosos 50 por cento da opinião pública.

 

Mas a Dilma faltou essa coragem e, de forma inábil, mostrando uma desastrosa capacidade de articulação política que em certos momentos chegou a ser confrangedora, começou a cavar a sua própria sepultura. Em vez de privilegiar o centro, "impedindo" o PSDB de encostar à direita, hostilizou a ala mais progressista do maior partido da oposição, praticamente "empurrando" figuras como Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Nunes ou mesmo José Serra para os braços dos sectores mais reaccionários de uma direita brasileira que muitas vezes pisa a fronteira do que é admissível em termos de discurso político democrático.

 

Resumindo: por incapacidade e falta da necessária coragem,  Dilma fechou-se ainda mais sobre si própria, aceitando e participando de acordos políticos inconcebíveis e transformando os últimos meses da sua gestão numa deprimente e degradante troca de cargos e benesses, que se sobrepunha a qualquer outra estratégia, que não era outra senão a mera sobrevivência do PT no poder a todo o custo.

 

Tudo isso contribuiu para que os últimos tempos de Dilma, apesar de tudo não envolvida até agora directamente em nenhum escândalo de corrupção, fossem penosos e até trágicos. Penosos pela desorientação estratégica que mostraram e pelo falhanço a toda a linha das opções de uma política económica desastrosa; trágicos porque, sem dúvida,  comprometem um próximo regresso ao poder de uma certa esquerda que, pese alguns êxitos governativos em matéria social, demorará muito tempo em ser sinónimo de esperança num país onde a política e o seu exercício são assim como uma mistura da saga do mítico Odorico Paraguaçu com a série televisiva "House of Cards"...

 

Consultor de marketing político, radicado profissionalmente no Brasil desde 2008

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