Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 18 de Outubro de 2016 às 10:02

Até quando dura o pesadelo?

O problema é que, nesta altura, o PSI-20 encontra-se a níveis de há 20 anos. Foram 20 anos perdidos na bolsa nacional.
Tenho saudades do "Bull Market". Saudades de fazer análises positivas, de olhar para os gráficos e ver que a única resistência à vista era o céu. Saudades dos Telejornais a abrirem com notícias sobre Bolsa. Saudades dos fóruns repletos de participantes. Saudades da Bolsa ser tema das conversas de café. Saudades dos investidores ganharem dinheiro e andarem com um sorriso nos lábios. Saudades de uma Bolsa portuguesa pujante, interessante e viva.

O actual "Bear Market" dura há cerca de dois anos e meio. Não posso dizer que a violência das quedas seja superior à de anteriores períodos dominados pelos ursos. O problema é que, nesta altura, o PSI encontra-se a níveis de há 20 anos atrás! Foram 20 anos perdidos na Bolsa portuguesa. Alguns dirão que ainda se retiraram os dividendos daí mas, se entrarmos por esses preciosismos, também teríamos que falar da inflação e voltaríamos a chegar à mesma conclusão - 20 anos perdidos na Bolsa portuguesa. E aquela velha lenga-lenga que o mercado de capitais, no longo prazo, é sempre lucrativo é uma vez mais posto em causa.

O futuro não é risonho para a economia portuguesa e não é preciso tirar um curso na área para percebermos isso. Quer isso dizer que este "Bear Market" durará eternamente? Não, os mercados não funcionam assim. Aquilo que tem vindo a acontecer nos últimos anos não é apenas o mercado a penalizar o mau desempenho da economia portuguesa como a antecipar a continuação desse padrão. Haverá uma altura em que a Bolsa começará a subir, sem razão aparente. Alguém antecipará uma melhoria do desempenho ou, simplesmente, o "smart Money" começará a achar que a Bolsa portuguesa foi demasiado penalizada e começará a entrar, fazendo o nosso mercado subir.

Face à sua descapitalização, o nosso mercado accionista tornou-se muito pequeno, com as vantagens e desvantagens que daí advêm. Por um lado, isso torna ainda menos apelativo para os investidores estrangeiros aqui investirem. Por outro lado, se o decidirem fazer, rapidamente o mercado vira e ganha velocidade ascendente. Falta um motivo forte para isso e não serão, certamente, as medidas que o Governo tem anunciado.

O que deve o pequeno investidor fazer? O meu conselho em relação à maioria das acções da Bolsa portuguesa (ou fundos) tem sido ficar de fora. E, sem vislumbrar qualquer sinal de força, mantenho esse meu pessimismo. Investir contra a tendência é meio caminho andado para o fracasso nos mercados financeiros, embora a tentação seja grande. O primeiro sinal de uma alteração da tendência de curto prazo seria a ruptura da linha de tendência descendente que vem marcando o ritmo das quedas no último ano. O segundo sinal seria a ruptura da resistência na zona entre os 4.800 e os 4.850 pontos. Mas aquilo que me faria decretar o início de um novo "Bull Market" seria a ruptura da resistência dos 5.600 pontos.

Muitos dirão que, se isso acontecesse, o PSI já teria subido mais de 20% e a oportunidade já estaria desperdiçada. Pura ilusão. Os "Bull Markets" são longos e poderosos e mais vale entrar tarde e de uma forma segura, do que ir tentando adivinhar o fundo e ser, sistematicamente, fustigado pelas quedas como tem acontecido a todos os heróis que têm desafiado as leis da gravidade nos últimos dois anos e meio.

Quando a Bolsa portuguesa começar a subir, ninguém acreditará nela e os dados macroeconómicos continuarão a ser decepcionantes. Foi assim em 1998, em 2002 e no Verão de 2012. Será assim sempre, o "Bull Market" começa quando nenhum dado económico aponta nesse sentido e quando quase ninguém acredita. Sonho com esse dia. E, apesar de o desejar muito, isso não chega para vestir o meu fato de touro. Até que os sinais cheguem, mantenho este feio e gasto fato de urso vestido.




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