Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 17 de Outubro de 2016 às 00:01

Aumento anestesiante de impostos

Nos idos de 70 havia um treinador de futebol famoso que obrigava os seus jogadores a injectarem-se com "doping".

Certo dia, um futebolista recusou levar o tratamento. Depois da discussão chegaram a um acordo, o jogador não levava injeção, mas era obrigado a comer uma laranja, onde o "doping" tinha sido aplicado. O orçamento apresentado sexta-feira recorda-me esta história, porque há novamente um aumento de impostos, que não notaremos com a brutalidade da agulha a injetar-se na pele,  mas que ingerimos de forma amarga e anestesiante num orçamento que tributa de forma ainda mais dura quase tudo o que mexe.


No entanto, a devolução de dinheiro a alguns milhões de contribuintes com a abolição gradual da sobretaxa de IRS e o aumento faseado das reformas mais baixas, vai provocar a ilusão a uma grande percentagem do eleitorado que há mais dinheiro nas suas carteiras. Pode ser pouco, mas vão notar e por isso, o orçamento é uma arma de artilharia pesada do governo em matéria política e eleitoral. Com recursos escassos e empurrando com a barriga os problemas estruturais do país, escondendo tudo o que for possível debaixo do tapete, o executivo de António Costa pode construir uma narrativa favorável que rende votos.

É uma narrativa com pés de barro: o fraco crescimento, o elevado endividamento do Estado e  as fragilidades do sistema bancário continuarão a ser uma ameaça latente.

Quanto às previsões macroeconómicas, raramente as metas inscritas nos orçamentos são para levar com rigor. Face à previsão inicial de Centeno, o PIB de 2016 terá um crescimento que é cerca de metade do previsto. Por isso a meta do próximo ano, embora modesta, tem tanta fiabilidade como uma aposta em qualquer totoloto.

Há uma fé reiterada no motor externo. Oxalá o crescimento de exportações e conquista de quotas de mercado no estrangeiro prossiga, mas vistas à lupa, e descontado efeitos como o da Galp, as exportações portuguesas, dependem de muito poucas empresas. O tecido económico português é muito diferente do alemão.

Voltando à carga tributária, se a imaginação fiscal tivesse imposto, alguém no governo pagaria caro. Tributar as balas é simbólico, mas é espécie de alegoria deste orçamento.

O "fat tax" agrava os refrigerantes. Uma medida pedagógica e até compreensível, mas o Estado tributa tudo, o facto de os açúcares fazerem mal à saúde é apenas uma boa desculpa. A cerveja também fica mais cara, assim como o tabaco. E nos vícios o Fisco cobra mais uns milhões, que serão sempre poucos face à sua voracidade e à rigidez da despesa pública.


O automóvel volta a ser uma mina de ouro. Tudo o que é possível taxar, agrava-se e como há uma dieselização da frota automóvel, alguém teve a brilhante ideia de agravar o imposto sobre o gasóleo e atenuar o da gasolina.

Esta mexida é grave, porque o diesel é o combustível do tecido económico, principalmente dos transportes que levam os produtos de um lado para o outro. Pagam as empresas e pagam os consumidores, até as exportações são penalizadas dado o custo do transporte, porque até chegarem à fronteira os camiões pagam mais caro pelo gasóleo.


Neste país tão endividado e há década e meia a crescer a um ritmo abaixo de 1%, se algum político lhe disser que o Orçamento reduz impostos, ou não sabe o que diz, ou simplesmente está a mentir.

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico

A sua opinião6
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado Mr.Tuga Há 3 semanas

Excelente artigo!

comentários mais recentes
5640533 Há 3 semanas

Parece que quem comprou carro a gasóleo foi enganado. O Governo é tudo menos pessoa de bem.

surpreso Há 3 semanas

Quem é este boi do Armando?

alberto9 Há 3 semanas

Só existe uma incorreção que deve ser rectificada, o diesel já tem preço diferenciado para os transportadores, para já só junto às fronteiras, mas em breve em todo o país

Mr.Tuga Há 3 semanas

Excelente artigo!

ver mais comentários