Anders Aslund
Anders Aslund 01 de janeiro de 2018 às 14:00

Avaliar os danos dos juros baixos

Os benefícios das baixas taxas de juro não foram para a população em geral – não chegaram certamente à classe média - mas para os bilionários, os 0,1% mais ricos.

Durante anos após a crise financeira de 2008, os decisores políticos congratularam-se por terem evitado uma segunda Grande Depressão. Eles responderam à recessão global com o tipo de estímulos orçamentais e monetários keynesianos que o momento exigia.

 

Mas passaram nove anos, e os juros continuam próximos de zero, enquanto o crescimento tem sido medíocre. Desde 2008, a União Europeia cresceu a uma média anual de apenas 0,9%.

 

O amplo consenso keynesiano que surgiu imediatamente após a crise tornou-se o dogma económico prevalecente de hoje: enquanto o crescimento permanecer abaixo do padrão e a inflação anual continuar abaixo de 2%, mais estímulos são considerados não apenas apropriados, mas necessários.

 

Os argumentos subjacentes a esse dogma não são válidos. Para começar, as medidas de inflação são tão pobres que são arbitrárias. Como Martin Feldstein, de Harvard, observa, os governos não têm uma boa forma de medir a inflação dos preços dos serviços e das novas tecnologias, que representam uma parcela cada vez maior do PIB das economias avançadas, porque a qualidade nesses sectores varia substancialmente ao longo do tempo. Além disso, imóveis e outros activos nem sequer são incluídos nas contas.

 

A doutrina de que a inflação deve subir a uma taxa anual de 2% também é arbitrária. O conceito centenário do economista sueco Knut Wicksell de uma taxa de juro "natural" - em que o crescimento real do PIB (ajustado pela inflação) segue uma média de longo prazo, enquanto a inflação permanece estável - faz sentido. Mas porque é que a taxa de inflação deve ser sempre de 2%? E porque é que os serviços, as novas tecnologias ou, por exemplo, os produtos manufacturados chineses não são excluídos da medida da inflação subjacente, juntamente com a energia e os alimentos?

 

Dadas estas falhas, vale a pena perguntar se a doutrina dos bancos centrais sobre "metas de inflação" sofrerá o mesmo destino do monetarismo na década de 1980, quando os responsáveis políticos estavam obcecados com a oferta de dinheiro. Tal como acontece com a inflação hoje, os banqueiros centrais não tinham nenhuma forma credível de medir a quantidade de dinheiro, muito menos de alcançar os objectivos desejados em matéria de política monetária.

 

Devemos considerar os efeitos de grandes défices orçamentais como outra forma duvidosa de estímulo. Em 2017, o crescimento económico na UE aumentou para uma taxa anual de 2,3%, depois de os Estados-membros terem reduzido os seus défices orçamentais para uma média de 1,5% do PIB, abaixo de 6,4% do PIB em 2010. Aparentemente, os estímulos orçamentais depois da crise não foram tão estimulantes. Em contrapartida, as políticas orçamentais mais apertadas nos últimos anos parecem ter tido um efeito positivo.

 

Geralmente, uma crise financeira dá origem a grandes reformas estruturais. Mas nem a crise de 2008 nem a subsequente crise do euro, provocada pelo excesso de dívida pública, levaram a uma desalavancagem significativa ou a destruição criativa schumpeteriana nos países afectados. Claramente, a inundação de gastos do governo aliviou a necessidade de reformas difíceis e permitiu que as empresas estabelecidas reforçassem as suas posições com financiamento barato. Qualquer hipótese de renovação estrutural foi sufocada à nascença.

 

Entre os países da UE, a dívida pública aumentou de 73% do PIB em 2009 para 86% do PIB em 2016, muito acima do limite de 60% do PIB estabelecido pelos critérios de Maastricht. No sul da Europa, as dívidas públicas são tão grandes que vão atrasar o crescimento nos próximos anos.

 

E, ainda assim, a última década de taxas de juro ultra-baixas deverá revelar-se ainda mais perniciosa do que os anos de défices orçamentais. Não há informações sobre quando ou onde a próxima bolha financeira explodirá. Mas seria bom prestarmos atenção às descobertas de economistas como o falecido Charles Kindleberger, Kenneth Rogoff de Harvard e Carmen Reinhart, e caminhar com cuidado.

 

Afinal, pode-se detectar bolhas potenciais em todo o lado. Os preços dos imóveis e de outros activos estão em níveis recorde em grande parte do mundo. E o valor da bitcoin em circulação aumentou dez vezes apenas este ano, para 170 mil milhões de dólares, embora o valor subjacente da criptomoeda continue a ser duvidoso, para dizer o mínimo.   

 

Taxas de juro muito baixas também criaram uma luta tal por rendibilidades mais elevadas que até um país pobre e mal gerido como o Tajiquistão pode vender Eurobonds. Para o presidente, Emomali Rahmon, isso é melhor do que pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional, o que exigiria reformas substanciais. Graças às baixas taxas de juro, Rahmon pode continuar a desgovernar a antiga república soviética como entender.

 

As muitas outras vítimas de taxas de juro ultra-baixas deviam ser igualmente evidentes. Os aforradores da classe média viram o valor real dos seus depósitos bancários cair anualmente a uma taxa de cerca de 2%, e muitos reformados sofreram um declínio real nas suas pensões, que são investidas em activos seguros gerando, por isso, retornos mínimos.

 

O mesmo acontece com muitas formas de seguros. As próprias seguradoras parecem estar bem, mas isso é porque estão a reduzir os benefícios de tal forma que os seus clientes se questionam porque é que se deram ao trabalho de contratar um seguro.

 

Mesmo os bancos estão cercados. Nas economias avançadas, os bancos tradicionais estão agora sujeitos a uma massa de regulação tão grande que tiveram que se retirar de actividades estrangeiras. Sem surpresa, intermediários menos regulamentados no sistema bancário sombra aproveitaram a maior parte dos seus negócios.

 

Tradicionalmente, o negócio bancário centrou-se em atrair depósitos e emitir empréstimos. Mas, como resultado das taxas de juros "baixas por um longo período de tempo", essa parte da actividade bancária tornou-se cada vez menor, e os bancos tiveram que cobrar taxas cada vez maiores por vários outros serviços financeiros.

 

Além disso, as taxas de juro baixas desviaram o dinheiro para instituições financeiras menos transparentes e mais especulativas, como fundos de private equity e hedge funds. Essas instituições prosperam com o crédito barato, que goza de um tratamento mais favorável do que o financiamento de capital na maioria dos regimes fiscais ocidentais.

 

Os benefícios das baixas taxas de juro não foram para a população em geral – não chegaram certamente à classe média - mas para os bilionários, os 0,1% mais ricos. A disparidade na riqueza global aumentou significativamente na última década e especialmente nos EUA, onde os bilionários pagam pouco a nada de impostos, graças a regras especiais. E, com o novo plano fiscal republicano, pagarão ainda menos.

 

A questão agora é se as instituições ocidentais são fortes o suficiente para conter a plutocracia global que as baixas taxas de juro criaram.

 

Anders Åslund é membro do Atlantic Council. O seu último livro, escrito com Simeon Djankov, é Europe’s Growth Challenge.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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Anónimo Há 2 semanas

Toda a razão. Na Europa as taxas negativas do Draghi serviram para aliviar o fardo dos sobreendividados, como Itália, à custa dos aforradores alemães e outros.Mas qual foi o resultado? A Itália continuou a aumentar a dívida e os alemàes encurralaram politicamente a Sra.Merkel. End of the road.

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