Miguel Luzárraga
Miguel Luzárraga 27 de dezembro de 2016 às 10:29

Avizinham-se tempos de incerteza

A 4 de dezembro, os italianos rejeitaram a reforma da constituição, com uma enorme afluência às urnas (68%) e uma larga vantagem dos partidários do "Não" (60% contra 40%), o que levou o primeiro-ministro Matteo Renzi a anunciar a intenção de se demitir, desencadeando um período de incerteza política.

As questões estruturais na Itália contribuíram para um longo período de baixo crescimento e de diminuição da competitividade nas últimas décadas. Renzi e o seu governo têm prosseguido um programa de reformas muito ambicioso, com o intuito de resolver alguns desses problemas, entre os quais a reforma do Senado se mostrava crucial. O referendo foi visto como um teste político para o governo, e a vitória do "Não" foi encarada como um voto de desconfiança na coligação que governa o país.

 

Ainda é muito cedo para fazermos previsões sobre as consequências da saída de Renzi. No entanto, o resultado mais provável é que o presidente da Itália venha a indigitar um candidato para formar um novo governo – um processo longo e complexo, que daria origem um longo período de incerteza e prejudicaria a economia italiana.

 

A vitória do "Não" tem tido impacto nos mercados, os quais evidenciaram um aumento do spread entre as obrigações de dívida pública italianas e alemãs durante o período que antecedeu o referendo. No entanto, poderemos ainda vir a assistir a um período de volatilidade a curto prazo, dada a incerteza que reina sobre o futuro político da Itália. A longo prazo, as implicações para os mercados de obrigações europeus dependerão da extensão e duração da crise política, embora o programa de compra de obrigações do Banco Central Europeu possa vir a reduzir o risco de um período de extrema volatilidade.

 

A turbulência nos mercados de obrigações poderá ter sérias implicações para o sistema financeiro, obrigando o governo a financiar a sua enorme dívida com custos de financiamento mais elevados devido ao impacto da incerteza nos mercados de obrigações.

 

Os balanços dos bancos italianos poderão igualmente vir a ressentir-se, dada a forte exposição dos credores do país às obrigações soberanas nacionais. O colapso do governo e o prolongado período de incerteza política acabarão igualmente por retardar ou interromper os processos de resgate e recapitalização que estão em curso, bem como o programa do "banco mau", podendo os investidores estrangeiros estar menos dispostos a subscrever levantamentos de capital por parte dos credores italianos.

 

O referendo italiano é a última etapa de um ano repleto de acontecimentos políticos de grande relevância, incluindo o Brexit e as eleições presidenciais dos EUA. Os resultados destas consultas populares parecem ter a mesma raiz: uma crescente sensação de desconfiança e insatisfação em relação aos partidos do sistema, como consequência da crise financeira global. A vitória do "Não" poderá agravar a sensação de caos político e fomentar a ascensão de partidos populistas não só em Itália, mas também noutros países europeus, quando estamos prestes a entrar num ano em que estão agendadas importantes eleições parlamentares na Áustria, na França, na Holanda e na Alemanha.

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