João Costa Pinto
João Costa Pinto 05 de dezembro de 2016 às 19:55

Banca e mercado de capitais - (LXXXV)

Os volumosos capitais que de facto afluíram às economias periféricas - excepto nos casos em que financiaram programas de obras públicas - alimentaram sobretudo ondas de especulação imobiliária e desequilíbrios externos crescentes.

1. Um dos argumentos mais utilizados por quem defendia o lançamento da moeda única europeia - entre os quais se incluía o autor desta coluna - prendia-se com a aceleração do movimento de integração financeira das economias da União Monetária. Prevalecia a convicção de que a integração dos mercados financeiros europeus teria um duplo efeito: por um lado, daria um impulso ao processo de aproximação económica e social, entre as economias mais frágeis e as mais competitivas e desenvolvidas da Zona Euro - "catching-up" (*) - através de três vias distintas: um afluxo de capitais às economias mais periféricas, atraídos por oportunidades de investimento em sectores estratégicos; um impulso ao mercado único, através do desaparecimento do risco cambial e da redução dos custos das transacções entre as economias do euro; por último, iria contribuir para a aceleração de reformas estruturais nas economias menos competitivas, na medida em que estas deixavam de contar com a manipulação do valor externo da sua moeda para preservar a competitividade. Deste modo seriam "forçadas" a acelerar um processo de modernização interna que, a prazo, iria tornar o espaço económico, financeiro e social da Zona Euro mais homogéneo; por outro lado, a integração financeira iria aumentar a eficácia da Política Monetária Única, nas situações em que choques - exógenos ou internos ao espaço do euro - fossem susceptíveis de ameaçar a estabilidade dos mercados financeiros e o crescimento económico. Como sabemos, não foi essa a evolução da Zona Euro. Os volumosos capitais que de facto afluíram às economias periféricas - excepto nos casos em que financiaram programas de obras públicas - alimentaram sobretudo ondas de especulação imobiliária e desequilíbrios externos crescentes. Hoje, estas economias debatem-se com dois tipos de problemas críticos: níveis excessivos de dívida que agravaram a sua dependência e vulnerabilidade financeiras; sistemas bancários sobredesenvolvidos e muito frágeis. Os fluxos de capitais que deviam ter suportado um processo de modernização, com ganhos de produtividade e competitividade externa, alimentaram desequilíbrios económicos e financeiros que estão a ameaçar a soberania das economias mais frágeis e a sobrevivência do próprio euro. Além dos erros das políticas públicas - tanto a nível nacional como da Zona Euro -, esta evolução foi fortemente impulsionada pelo tipo de intermediação financeira existente na Europa. Dependente quase em exclusivo de bancos especializados no financiamento imobiliário e no crédito de curto prazo - produção e consumo - esta situação que começou por favorecer o lançamento e a aceitação do euro, em substituição das moedas nacionais, induziu depois a aceleração do endividamento das famílias e o crescimento de um tecido produtivo financeiramente frágil e atomizado.

 

2. O peso excessivo da intermediação bancária permanece assim como um obstáculo no caminho da integração financeira da Europa do euro, no contexto mais global do movimento de globalização dos mercados. Neste contexto, o redimensionamento e a reorganização em curso dos mercados bancários da Zona Euro - questão crítica em algumas economias como a nossa - deviam ser articulados com um forte impulso ao desenvolvimento de alguns segmentos dos mercados de capitais - dívida soberana e PME. Questões para próximos artigos.

 

(*) -"Catching-up": aproximação

 

Economista

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