João Costa Pinto
João Costa Pinto 17 de abril de 2017 às 20:12

Bancos - para onde vão? - (XCIV)

Nas economias devedoras mais frágeis, os bancos enfrentam bloqueamentos e dificuldades que os tornam mais vulneráveis. No nosso caso, por exemplo, assistimos a um movimento rápido de reconfiguração e de recuo do sistema bancário.

A resposta da Europa do euro à crise financeira intensificou pressões que estão a induzir mudanças estruturais no papel dos bancos. Baixas taxas de juro, crescimento incipiente ou mesmo queda do crédito, crédito malparado a níveis históricos (NPL)(1), exigências adicionais de provisões e capital, a par de incerteza regulatória e do custo da deterioração da imagem e da reputação dos bancos, desagregaram o modelo tradicional do negócio bancário. Neste contexto, a situação dos bancos deve ser avaliada numa dupla perspectiva: por um lado, estão a procurar reconstruir as suas contas de exploração e repor níveis de rentabilidade que lhes permita atrair capital. Para tal estão a actuar ao longo de dois vectores: um virado para o interior das suas operações - efectivos, redes, custos operacionais, "outsourcing" de funções não "core", automação e digitalização; outro, dirigido ao mercado, procurando substituir margem financeira por comissões, através da oferta de novos produtos e sobretudo de serviços. Este movimento vai ter consequências muito complexas a prazo, aproximando o negócio bancário das "utilities"(2). O que, por sua vez, vai induzir um movimento de consolidação - tanto a nível doméstico, como pan-europeu - na medida em que a dimensão das operações é crítica para que um modelo assente em comissões atinja níveis adequados de rentabilidade; mas, por outro lado, esta evolução deve ser avaliada no contexto das transformações porque têm de passar os mercados financeiros do euro, nomeadamente através da emersão de mercados de capitais integrados - União de Capitais - num quadro em que a União Bancária seja completada. Movimento que, a verificar-se, não deixará de intensificar as pressões sobre os bancos, acelerando o processo de consolidação que referi e que é, como se sabe, favorecido pelos supervisores europeus.

 

2. A  verdade, no entanto, é que o "ponto de partida" não é o mesmo nos diferentes sistemas bancários da Europa do euro. Nas economias devedoras mais frágeis, os bancos enfrentam bloqueamentos e dificuldades que os tornam mais vulneráveis. No nosso caso, por exemplo, assistimos a um movimento rápido de reconfiguração e de recuo do sistema bancário, com implicações tanto a nível micro - dos próprios bancos e das empresas que financiam - como macro, sobre a produção e o investimento. O último relatório do Banco de Portugal sobre o sistema bancário reflecte esta situação, ao afirmar: "O activo total do sistema bancário continuou a diminuir de forma gradual no quarto trimestre de 2016"(3). Entre 2011 e o final de 2016, tanto o activo total como o crédito às empresas caíram cerca de 25%. Passados seis anos desde o início do programa de desalavancagem da troika, prossegue um ajustamento sem paralelo histórico num contexto de liberdade de movimento de capitais. O ambiente de "repressão financeira" em que as empresas estão a operar condiciona as suas decisões de investimento. O que está a afectar negativamente a inovação, a eficiência e a produtividade. Evolução que está a ter um efeito de "boomerang" sobre os próprios bancos, travando o negócio novo e deste modo contribuindo para o envelhecimento e para a deterioração da qualidade das carteiras de crédito. É neste quadro que deve ser avaliada a situação dos nossos bancos e respondidas as questões que sobre eles coloquei num artigo anterior(4). Em próximos artigos proponho-me abordar as pressões que estão a ter de absorver e as dificuldades que enfrentam, à luz da sua natureza - capital público, cooperativo/mutualista e privado - e das mudanças que se estão a verificar nos seus mercados tradicionais.

 

(1) NPL: créditos improdutivos; (2) utilities: prestadoras de serviços; (3) Relatório do IV trimestre de 2016; (4) Bancos - para onde vão? - (XCI).

 

Economista

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comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

O futuro da banca portuguesa há muito que está definido. E não foi traçado "cá dentro".
Em breve a "ibéria" será "una".

surpreso Há 1 semana

Não se fizeram as fusões necessárias