Stephen  Roach
Stephen Roach 16 de Outubro de 2016 às 20:00

Banqueiros centrais desesperados

Os banqueiros centrais querem desesperadamente que as pessoas acreditem que eles sabem o que estão a fazer. Nada poderia estar mais longe da verdade.

O último dia do verão marcou o início de mais uma temporada de políticas inúteis por dois dos principais bancos centrais do mundo – a Reserva Federal dos EUA e o Banco do Japão (BOJ, na sigla inglesa). A Fed não fez nada, o que é precisamente o problema. E os alquimistas do BOJ apresentaram outra fraca jogada não convencional.

 

Tanto a Fed como o BOJ estão a seguir estratégias lamentavelmente desconectadas com as economias que foram incumbidos de gerir. Além disso, as suas acções mais recentes reforçam um compromisso crescente com um mecanismo de transmissão cada vez mais insidioso entre política monetária, mercados financeiros e economias dependentes de activos. Esta abordagem levou ao colapso de 2008-2009, e pode muito bem lançar as sementes de uma nova crise nos próximos anos.

 

Perdida no debate sobre a eficácia das novas e poderosas ferramentas que os banqueiros centrais têm adicionado ao seu arsenal está a dura realidade do crescimento económico anémico. O Japão é um exemplo óbvio. Presa numa trajectória de crescimento de 1% no último quarto de século, a sua economia não foi capaz de responder aos repetidos esforços dos estímulos monetários extraordinários.

 

Seja qual for a sigla - primeiro, ZIRP (a política de taxas de juro zero do fim dos anos 1990), depois QQE (flexibilização quantitativa e qualitativa lançada pelo governador Haruhiko Kuroda em 2013), e agora NIRP (a recente mudança para uma política de taxas de juro negativas) - o BOJ tem prometido muito e realizado pouco. Na verdade, com o crescimento real anual do PIB do Japão a cair para 0,6% desde que Shinzo Abe foi eleito primeiro-ministro no final de 2012 - um terço mais lento do que a fraca taxa de 0,9%, em média, nos 22 anos anteriores (1991 a 2012) – o grande pacote de estímulos conhecido como "Abenomics" tem sido um fracasso miserável.

 

A Fed não se tem saído muito melhor. O crescimento real do PIB nos EUA foi, em média, de apenas 2,1% nos 28 trimestres desde que a Grande Recessão terminou no terceiro trimestre de 2009 - quase metade do ritmo médio de 4% nos períodos comparáveis de retomas anteriores.

 

Tal como no Japão, a recuperação da América tem sido, em grande medida, indiferente aos estímulo não convencionais da Fed - taxas de juros zero, três doses de alívio quantitativo (QE1, QE2 e QE3), e uma operação Twist na curva de rendimentos, que parece ser o antecedente da última jogada do BOJ. (O BOJ acaba de anunciar que tem como meta taxas de juro zero para os títulos de dívida pública a dez anos).

 

Não obstante o persistente défice de crescimento, os banqueiros centrais continuam convencidos de que a sua abordagem está a funcionar, por apresentar o que eles chamam de resultados compatíveis com o seu mandato. A Fed aponta para a redução acentuada da taxa de desemprego nos EUA - de 10% em Outubro de 2009 para 4,9% hoje - como prova prima facie de uma economia que se está a aproximar de uma das metas do chamado duplo mandato da Fed.

 

Mas quando o crescimento aparentemente sólido do emprego se justapõe com a fraca produção, a história desenrola-se, revelando uma grande desaceleração da produtividade, que levanta sérias questões sobre o potencial de crescimento de longo prazo da América e uma eventual acumulação de custos e pressões inflaccionárias. A Fed não pode ser criticada por tentar, argumentam os contra-factualistas que insistem que só as políticas monetárias não convencionais ficaram entre a Grande Recessão e outra Grande Depressão. No entanto, isso é mais uma afirmação do que uma conclusão verificável.

 

Enquanto a tracção política tem estado notavelmente ausente nas economias reais do Japão e dos EUA, os mercados de activos são uma história diferente. As acções e obrigações subiram com as políticas monetárias que conduziram  a taxas de juros baixíssimas e a grandes injecções de liquidez.

 

As novas políticas monetárias não convencionais em ambos os países estão, obviamente, a ignorar a desconexão entre os mercados de activos e a actividade económica real. Isto reflecte o resultado de dolorosas recessões dos balanços, nas quais a procura agregada, sustentada artificialmente por bolhas nos preços dos activos, entrou em colapso quando as bolhas estouraram, levando a um enfraquecimento crónico dos consumidores (Estados Unidos) e empresas (Japão) superalavancados e dependentes de activos. Sob tais circunstâncias, a falta de resposta à política de taxas de juro zero não é surpreendente. Na verdade, é uma reminiscência da chamada armadilha de liquidez dos anos 1930.

 

O que é particularmente desconcertante é que os banqueiros centrais continuam em negação perante esta dolorosa realidade. Como as mais recentes acções do BOJ indicam, a propensão para a engenharia financeira permanece inabalável. E como a Fed demonstrou mais uma vez, a normalização dos juros continua a ser adiada. Tendo esgotado o seu arsenal tradicional há muito tempo, os banqueiros centrais continuam focados, de forma míope, na concepção de novas ferramentas, em vez de assumirem o papel destrutivo que as suas velhas ferramentas desempenharam no desencadear da crise.

 

Ainda que os mercados financeiros adorem qualquer forma de acomodação monetária, não pode haver nenhuma dúvida sobre o seu lado negro. Os preços dos activos estão a ser manipulados de forma geral - acções e obrigações, activos de curto e longo prazo, bem como as moedas. Como resultado, os aforradores estão a ser penalizados, o custo do capital é reprimido, e a assunção de riscos imprudentes está a ser incentivada num clima de restrição de rendimentos. Este é um terreno especialmente traiçoeiro para as economias que precisam desesperadamente de investimento para aumentar a produtividade. E não é muito diferente do ambiente que incubou a crise financeira mundial de 2008-2009.

 

Além disso, mercados de activos espumosos numa era de acomodação monetária extrema tiram a pressão das autoridades para agir. A incapacidade de acatar uma das mais poderosas (sim, keynesiana) lições da década de 1930 - que a política orçamental é o único caminho para sair da armadilha da liquidez - poderá ser a maior tragédia de todas. Os banqueiros centrais querem desesperadamente que as pessoas acreditem que eles sabem o que estão a fazer. Nada poderia estar mais longe da verdade.

 

Stephen S. Roach, membro do corpo docente da Universidade de Yale e ex-presidente do Morgan Stanley na Ásia, é o autor de "Unbalanced: The Codependency of America and China".

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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comentários mais recentes
Avelino Guanabara Há 3 semanas

Não é bem assim. Eles não querem de forma alguma que as pessoas saibam o que eles fazem! Falsificam dinheiro!!!

burlado Há 3 semanas

Gatunos roubaram descaradamente os clientes nos balcões do BES, ainda querem que confiem em vigaristas

Pedro Fonseca Há 3 semanas

Roubem menos...

Juventino Bernardo Há 3 semanas

Uma dona de casa com a quarta classe é muito melhor gestora.