Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 18 de Outubro de 2016 às 00:01

"Bastante conforto", caro primeiro-ministro?

Talvez António Costa não pudesse ter dito outra coisa. Afinal, estava a falar à Bloomberg TV durante uma viagem de diplomacia económica à China.

Mas é difícil não sentir desconforto quando ouvimos o primeiro-ministro a dizer que está "bastante confortável com o investimento chinês na banca" - sobretudo quando este investimento, que pode vir a envolver dois bancos privados relevantes, o BCP e o Novo Banco, pode constituir uma fonte de potencial instabilidade para o sistema financeiro português.

 

Parece que já foi há muito tempo que o governador do Banco de Portugal defendeu que "ao nível europeu, não deve ser permitido que bancos façam parte de conglomerados mistos, porque essa situação favorece mecanismos de contágio difíceis de controlar". Foi só em Março de 2015. Estávamos na ressaca do colapso do conglomerado Espírito Santo e Carlos Costa admitia no Parlamento a dificuldade acrescida em assegurar a regulação de um banco exposto aos negócios não financeiros dos seus accionistas.

 

A Fosun, que se prepara para assumir uma posição de destaque no BCP, é um conglomerado oriundo de uma cultura empresarial e política que é um mistério para o regulador português. É um conglomerado com um ritmo de crescimento acelerado. Mais: é um conglomerado cujos resultados operacionais deixam muito a desejar. Uma análise publicada em Agosto passado na Bloomberg ("Fosun Goes Into Reverse") identifica que, em vez de contribuir para financiar a Fosun, os resultados operacionais dos negócios que compra consumiram 1,5 mil milhões de euros de capital nos últimos dez anos. Em quase todos estes anos, beneficiando da enorme liquidez passada existente na China, a Fosun levantou dinheiro que lhe permitiu tapar buracos. Mas o escudo da dívida e o do capital não duram para sempre: algum dia os negócios terão de dar lucro.

 

Este perfil (e a relação aparentemente tensa entre a Fosun e o poder político chinês) deveria ser suficiente para causar desconforto - até porque em Portugal já há um exemplo daquilo que significa. Depois de adquirida pelo grupo chinês à Caixa em 2014, a seguradora Fidelidade subscreveu duas emissões de dívida, no total de 1,1 mil milhões de euros, de um fundo que financia a expansão da Fosun. Em paralelo, já comprou 340 milhões de euros em activos imobiliários a outro fundo da Fosun. O grupo chinês defende, naturalmente, a racionalidade dos investimentos - mas temos assim tão fraca memória para também aqui não vermos causa para desconforto?

 

E no Novo Banco? O fundo de Hong Kong que corre pelo banco é detido em 71% pelo maior fundo de capital privado na China continental, o China Minsheng Investment - negócio com grandes ligações políticas e nomes sonantes a emprestar credibilidade, como o do ex-presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi (pois é, caro Durão Barroso: escolheu mal o empregador). O fundo nasceu com cerca de 7 mil milhões de euros quase ao mesmo tempo que o Novo Banco era criado a partir das cinzas do BES. Em menos de três anos já tem 27 mil milhões em activos, numa estratégia que procura juntar… negócios financeiros e não financeiros. Em si mesmo nada disto é proibitivo, mas não causa algum desconforto?

 

Fazer perguntas não é "diabolizar o capital chinês". É valorizar a importância fulcral e específica da banca - e querer perceber se, para resolver um problema financeiro e político num curto prazo sem escolhas ideais, não corremos o risco de abrir uma frente de instabilidade mais à frente na curva. "Bastante conforto", caro António Costa? Esperemos que seja só retórica.

 

Jornalista da revista SÁBADO

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