Francisco Mendes da Silva
Francisco Mendes da Silva 05 de dezembro de 2017 às 20:01

Belmiro: o homem que provou que é possível ser liberal em Portugal

Há sempre um momento na vida de todo o liberal português em que as suas convicções começam a sofrer um teste existencial.

Não que o liberal passe a pôr em causa a validade moral do liberalismo ou a duvidar da sua robustez intelectual. O que acontece é que, mais tarde ou mais cedo, o liberal pátrio é surpreendido pela verificação de que, à sua volta, quase ninguém está para ali virado.

 

Uma pessoa entusiasma-se com o John Stuart Mill, o Adam Smith e o David Ricardo, o Raymond Aron e o Karl Popper, o Hayek e o Nozick, ou com a jurisprudência americana sobre a liberdade de expressão, e depois constata o quão Portugal é impermeável às ideias sobre a ordem espontânea e a liberdade como valor central da vida. Pregá-las parece o exercício de um estrangeirado diletante. Os portugueses nunca vêem o lado aspiracional e progressista do liberalismo. Este é só fonte de desordem e imprevisibilidade. Mais vale o conforto de uma vida regulada e silenciosa.

 

A dúvida agudiza-se quando se percebe que em Portugal nem os capitalistas são propriamente a vanguarda do liberalismo. O que mais para aí vemos são empresários encostados ao Estado, a pedir subsídios e regimes de excepção, e a "aposta estratégica" do país nos seus sectores (tradução: empresários a pedir que os políticos gastem o dinheiro dos contribuintes nos seus negócios).

 

É por isso que um liberal olhava para Belmiro de Azevedo com sentimentos mistos. Belmiro era o maior empresário de Portugal, mas quase não parecia de Portugal. Era o grande empresário que mais se afastou do Estado e da política, mas quase parecia o único. Um liberal olhava para Belmiro com uma admiração que, no fundo, gerava melancolia.

 

Belmiro de Azevedo encarnava as virtudes do liberalismo e do capitalismo num país que adora detestar um e outro. Ele mostrou como se montam negócios e constroem equipas privilegiando a inteligência e o carácter. Belmiro era o exemplo de como se pode e deve falar livremente, de como se pode e deve viver segundo a força criadora da liberdade económica, gerando riqueza e empregos, massa crítica e mobilidade social, modernizando sectores económicos fundamentais, e melhorando com isso a vida da comunidade, sem sobreviver à custa da influência junto do poder político. Com Belmiro, o capitalismo foi, realmente, um sistema libertador.

 

Havia, porém, um princípio capitalista que Belmiro não seguia à risca: o de que a responsabilidade social de uma empresa é apenas gerar lucro. Viu-se isso na forma como foi sempre decidindo manter o jornal Público, apesar de décadas de prejuízos. Mais: viu-se isso na forma como esse "perdócio" (palavra do próprio) foi sobrevivendo sem que o seu dono se imiscuísse na vida interna do jornal ou desincentivasse a liberdade dos seus jornalistas. Não havia aqui qualquer contradição: Belmiro de Azevedo, que construiu um império empresarial em democracia, percebia que a liberdade económica de que beneficiou só é possível numa sociedade politicamente livre.

 

Apesar de ser um exemplo extravagante, Belmiro provou que é possível ser liberal em Portugal. Devemos-lhe isso. 

 

Advogado

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mais votado Anónimo Há 1 semana

Os colaboradores cujo posto de trabalho já não se justifica, quer seja na banca, na administração pública ou noutro sector qualquer, já foram remunerados acima do seu preço de mercado durante muito tempo, e por isso o Estado, a economia e a sociedade nada lhes deve. Antes pelo contrário, os colaboradores nessa situação são devedores de uma dívida colossal ao Estado, à economia e à sociedade, que se avoluma a cada dia que passa sem que sejam despedidos.

comentários mais recentes
Anónimo Há 1 semana

Belmiro: o homem que provou que é possível ser liberal em Portugal
PRINCIPALMENTE COM A "LIBERALIZAÇÃO" DO PINTO DE MAGALHÃES.
É CLARO QUE O DR AINDA NÃO ERA "NASCIDO", MAS PODIA TENTAR INFORMAR-SE MELHOR!

Caro anónimo Há 1 semana

Quer despedir as pessoas? Faça assim comece por si sua besta

Pois Há 1 semana

É possível mas não é desejável, explorou os trabalhadores, criou emprego? Claro, se não explorasse os trabalhadores não facturava. menos um que saudades são zero. Adios

Anónimo Há 1 semana

Deixa poucas saudades aos trabalhadores .... O quinhentista deixa só um rasto de riqueza para a sua familia e amigos e escravidão aos seus empregados . O seu velorios viu-se que não tinha mta representação de gente do povo ,os que estavam foram mtos por hipocrisia e serem vistos ...

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