Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 15 de março de 2017 às 20:03

Biombos e cortinas de fumo

Com a intensificação da crise europeia, irá verificar-se que os biombos e as cortinas de fumo produzidas pela esfera política em Portugal apenas deixaram pó, cinza e nada.

A FRASE...

 

"Causa a maior perplexidade que, havendo boas notícias quanto ao rumo económico do nosso país, existam responsáveis políticos que foquem a sua atenção numa clara luta contra instituições de referência, como é caso do Banco de Portugal ou de outros organismos independentes, discutida em alta-voz para que não passe despercebida."

 

Manuela Ferreira Leite, Expresso, 11 de Março de 2017

 

A ANÁLISE...

 

A perplexidade pode ser a antecâmara da revelação. Se for encontrada a resposta para essa perplexidade, o que se vê será o que sempre lá esteve, mas que não se via porque estava escondido pelo biombo construído com as notícias e as polémicas que têm por finalidade desviar a atenção do que é relevante. Gerir cortinas de fumo é uma habilidade política conhecida, que se utiliza para esconder o que não é favorável ou para permitir a fuga a quem estiver numa situação difícil. Espera-se que o que há para ver já seja diferente ou que o fugitivo já não possa ser capturado quando o fumo se dissipar. O problema não está no observador, mas sim nos que colocam os biombos e produzem as cortinas de fumo.

 

Quando se mostra para esconder ou é porque as notícias não são boas, ou é porque as instituições não podem ser independentes, ou é porque é preciso apresentar uma evidência alternativa antes que seja visível a evidência efectiva. Responsabilizar os reguladores por não terem actuado quando tiveram informações de práticas indevidas ou ridicularizar os que fizeram previsões que não se confirmaram terá o resultado habilidoso de impedir que os responsáveis pelas práticas indevidas sejam capturados ou de justificar as más notícias futuras com os efeitos negativos das previsões pessimistas que foram tornadas públicas. Quem mostra para esconder já desistiu de enfrentar e resolver os problemas.

 

Há mais de quatro décadas que o poder político em Portugal adiciona promessas que não concretiza, porque o único modelo de desenvolvimento que conseguiu estruturar é induzido da Europa - e nem esse conseguiu assumir e interiorizar. Com a intensificação da crise europeia, irá verificar-se que os biombos e as cortinas de fumo produzidas pela esfera política em Portugal apenas deixaram pó, cinza e nada.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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