Jim O'Neill
Jim O'Neill 24 de janeiro de 2018 às 14:00

Bons tempos finalmente?

Desde que as condições financeiras não se alterem excessivamente como resultado do fortalecimento cíclico de hoje, o desempenho económico global no resto desta década pode ser mais robusto do que qualquer um teria imaginado há uns anos.

Em Fevereiro de 2017, escrevi um comentário optimista chamado "A Resiliência Surpreendente da Economia Global". O texto foi uma surpresa para aqueles que só tinham perspectivas sombrias para os países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, onde o presidente dos EUA, Donald Trump, acabara de assumir o cargo.

 

Agora, quase um ano depois, a minha experiência de três décadas nos mercados financeiros globais leva-me a acreditar que a situação económica não é assim tão simples.

 

Do lado positivo, a meia dúzia de indicadores cíclicos que mencionei em Fevereiro do ano passado permanecem fortes, e alguns fortaleceram-se ainda mais. Um indicador-chave são os dados comerciais da Coreia do Sul. As exportações do país cresceram 15,8% em 2017, o maior aumento desde 1956, quando começou a série histórica. Além disso, o crescimento das exportações aconteceu apesar das ameaças de Trump de abandonar o Acordo de Livre Comércio entre os EUA e a Coreia e das tensões com a Coreia do Norte – um forte revés para aqueles que previam uma redução do comércio global.

 

Como suspeitava há um ano, a desaceleração no comércio global nos últimos anos resultou provavelmente da crise do euro e da queda dos preços das matérias-primas, e por isso mesmo foi temporária. Agora que esses dois eventos estão ultrapassados, o comércio global parece ter recuperado.

 

Resta saber se este dinamismo se vai manter. Embora o desempenho das exportações da Coreia do Sul em Dezembro tenha sido impressionante, ficou um pouco abaixo das expectativas. Teremos que esperar e ver se continuará forte em 2018.

 

Outro indicador cíclico chave está reflectido nos inquéritos mensais do Índice de Gestores de Compras (PMI) para a indústria e serviços, que incluem subíndices subjacentes para inventários e vendas. Aqui, a novidade é notável: os resultados do PMI em muitos países do mundo estão em máximos de vários anos.

 

Isso inclui os EUA, onde descobri que o PMI para a indústria é consistentemente preciso e indicativo de realidades subjacentes. Também inclui a Zona Euro, onde os dados do PMI atingiram os seus níveis mais altos desde antes de 2000.

 

Mesmo os dados do PMI do Reino Unido estão a mostrar alguma dinâmica, ainda que não tanta como noutros países ocidentais, provavelmente devido ao efeito do Brexit. Se o ambiente económico global continuar a melhorar, o Reino Unido pode ter sorte no momento da saída da União Europeia, apesar dos efeitos de abrandamento do crescimento que o Brexit certamente terá.

 

Na China, os principais indicadores também são bons, particularmente em termos de crescimento de longo prazo nos serviços e no consumo interno. Continuo a acreditar que estes dois factores terão consequências importantes não só para a China, mas também para o resto do mundo. Muitos países querem exportar mais do que apenas matérias-primas para a China e, em todo o mundo, há empresas a lutar para terem acesso ao enorme mercado doméstico daquele país.

 

Dito isto, as previsões que antecipam um crescimento do PIB global de 4% ou mais para 2018 parecem credíveis. Não ficaria surpreendido se os economistas ainda revissem em alta os seus números nos próximos dois meses. O Fundo Monetário Internacional deverá fazê-lo na primavera, se não antes.

 

Então, o que há para não gostar no quadro económico global para 2018? Para começar, como veterano dos mercados financeiros, geralmente desconfio dos grandes consensos. Embora muitas das preocupações citadas em 2017 tenham sido injustificadas, isso não significa que os riscos económicos tenham desaparecido.

 

Ao contrário do que acontecia há um ano, as pessoas reconhecem cada vez mais que a economia global é mais forte do que se pensava. Mas se o crescimento continuar a acelerar, a Reserva Federal dos Estados Unidos poderá acabar por subir mais os juros do que o mercado antecipava. E os outros grandes bancos centrais, particularmente o Banco Popular da China, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão, podem reverter as suas políticas monetárias excepcionalmente expansionistas. 

 

Se a economia global estiver mesmo a voltar a um crescimento relativamente elevado e estável, o aperto da política monetária não precisa de ser prejudicial - e pode até ser menos nocivo do que esperar evidências de um crescimento mais forte da inflação. No entanto, as principais economias mundiais desfrutaram de políticas monetárias muito generosas durante uma década - e mais ainda no caso do Japão. Assim, ninguém sabe realmente quais serão as consequências de juros mais altos.

 

Pela minha parte, suspeito que o crescimento da produtividade irá acelerar em vários lugares, o que justificaria ajustamentos da política monetária e tornaria as taxas de juro crescentes mais toleráveis. Mas isso é apenas um pressentimento, com base na minha leitura dos dados sobre salários e produtividade no Reino Unido e nos EUA, entre outros países.

 

Uma última preocupação é que o sentimento global tenha passado do medo em torno dos riscos políticos para o alheamento, mesmo que muitos desses riscos continuem a crescer. As consequências potenciais da má liderança dos EUA no Médio Oriente e na Península da Coreia não podem ser ignoradas; nem os desafios a longo prazo que a Europa ainda enfrenta. Estou convencido de que, pelo menos no caso dos investidores financeiros, é melhor para todos estar preocupado com tudo do que uma pequena minoria preocupar-se em nome de todos os outros.

 

Ainda assim, e mais importante ainda, desde que as condições financeiras não se alterem excessivamente como resultado do fortalecimento cíclico de hoje, o desempenho económico global no resto desta década pode ser mais robusto do que qualquer um teria imaginado há uns anos.

 

Jim O’Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management, é professor honorário de Economia na Universidade de Manchester e antigo presidente da revisão sobre a Resistência Antimicrobiana do governo britânico.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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