Baptista Bastos
Baptista Bastos 17 de fevereiro de 2017 às 10:31

Breve memória do bairro dos jornais e de mim próprio

As coisas são como são, mas a omissão daqueles que deram ao país a grandeza da memória, parece-me uma ofensa grave à própria história que é nossa.
Não gosto de voltar aos sítios onde fui feliz. E o Bairro Alto está repleto dessas memórias que fizeram de mim o que sou, ou melhor, o que fui. Os jornais estavam ali quase todos, pelo menos os mais importantes. E a comunidade jornalística, pequena mas cercada por essa espécie de afecto, só conhecida dos jornalistas. Trabalhei, na zona, em três deles, O Século, República e Diário Popular. Nenhum deles existe. E, às vezes, na Rua Luz Soriano, onde morava também o Diário de Lisboa, observava da janela do Popular, passar o Artur Portela, que regressava a casa, vindo dos escritórios do Coliseu, onde arredondava a conta ao fim do mês, nos escritórios do Ricardo Covões, republicano e homem de tertúlias.

O bairro dos jornais. Durante anos, muitos anos, deixei de frequentar aquelas ruas. Soube que as máquinas de impressão haviam sido vendidas ao desbarato. E, certa tarde, fui ao jornal A Bola, gravar uma entrevista melancólica sobre os "meus" tempos. Saí do bairro, calafetado por proibições, e não mais lá voltei. Há muitos anos que não passava por aquelas ruas, onde fui feliz e desenvolto. Pedi ao motorista de táxi que percorresse as ruas não proibidas. Apenas para regressar aos tempos da minha infância e relembrar alguns daqueles que montaram o passado de todos no passado de eles próprios. Um desfile de rostos e de lembranças percorreu as minhas memórias. E sei que essa gente esquecida, alguns com nomes nas ruas, mas quase todos apagados nas lembranças, deram forma e calor humano a este bairro.

As coisas são como são, mas a omissão daqueles que deram ao país a grandeza da memória, parece-me uma ofensa grave à própria história que é nossa. Vivi, era muito miúdo, no Bairro dos Mortos, à Boa Hora, que homenageava gente desconhecida morta, creio, na Primeira Guerra Mundial. Ninguém sabia quem eram e que destemor haviam praticado. Depois, morei em outros sítios da cidade, levado pelas circunstâncias de uma vida atribulada. Nada culpo, a ninguém aponto o dedo. Nem sequer com o decorrer do tempo ouso dizer que fui infeliz. Nada disso. As coisas aconteceram porque tinham de acontecer a um rapaz pobre, filho de gente pobre. Às vezes lembro-me de episódios fortuitos, mas amparados pelas circunstâncias factuais que fizeram de mim o que sou. E o que sou, não é mais nem menos do que foram os rapazes daquele tempo. Já muitos foram embora, com o rodar dos anos frequentei alguns sítios, nunca deixei de ser o que fui, e se, em alguns casos, vivi durante anos e anos em bairros de que não gostava, com gente que detestava, o sofrimento e a dor eram apagados pelo amor que tinha à mulher com quem vivia. Nada a opor, nada a contrariar: as coisas foram o que foram e não há nada a fazer.

O destino e as circunstâncias fazem, ocasionalmente, com que as memórias regressem, e certas dores espicacem-me. Apenas isso. Não atribuo muitas dores às ideias que me tocam no batente. As coisas, acaso, tinham de ser assim, como foram. Olho para os meus filhos e para os meus netos e gosto muito deles. E também gosto do que tenho feito, nos jornais e nos livros. Está lá tudo, em metáforas e em outros esconderijos, o que vou tentando dizer. Como nesta crónica.



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