José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 13 de dezembro de 2017 às 20:18

Brevíssima história económica do séc. XXI

Esgotado o expediente da dívida, os países desenvolvidos foram forçados a recuperar competitividade, nomeadamente através da contenção salarial.

A FRASE...

 

"Os receios de que a China venha a substituir os EUA no papel de superpotência internacional não são justificados."

 

Harvard Kennedy School, 2016

 

A ANÁLISE...

 

A fase de intensificação da globalização que começou com o fim da Guerra Fria e se consolidou com a adesão da China à OMC em 2001 teve um impacto inexorável em todo o mundo. A rápida industrialização do Segundo Mundo (antigo bloco comunista) estimulou a industrialização do Terceiro Mundo (países pouco desenvolvidos não-comunistas) por via do incremento da procura por matérias-primas, necessitadas pelos primeiros e produzidas pelos segundos. Esta dinâmica traduziu-se em níveis inéditos de desenvolvimento económico e social nos estados a que hoje chamamos mercados emergentes, permitindo que largos milhões de pessoas saíssem de situações de pobreza extrema.

 

Apesar de as transformações impostas pela globalização terem tido um saldo claramente positivo, a distribuição dos ganhos não foi uniforme. A enorme vantagem de custos das potências industriais emergentes foi abrindo brechas nas fileiras produtivas dos países mais ricos, que só não gerou desemprego massivo porque o mundo desenvolvido pôs em marcha sincronizada uma estratégia de estímulo aos setores não-transacionáveis, com incidência no imobiliário e nos mercados financeiros, alimentada por um aumento sem precedentes do endividamento. Tal solução pareceu um sucesso até a crise financeira internacional de 2008 mostrar que afinal foi um logro. Esgotado o expediente da dívida, os países desenvolvidos foram forçados a recuperar competitividade, nomeadamente através da contenção salarial, o que em paralelo com a forte progressão dos salários nas economias emergentes, em particular a China, ditou uma erosão de competitividade destes últimos e criou um problema de modelo de crescimento. Tal como os países desenvolvidos anteriormente, a China reagiu a este desafio com uma política de estímulo do setor não-transacionável assente na explosão insustentável do envidamento.

 

Ainda que com cenários e protagonistas diferentes, as histórias económicas da primeira década do séc. XXI e da parte já desvendada da segunda pouco divergiram na sua dinâmica. Será que divergirão no desfecho?

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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