Ricardo Pinheiro Alves
Ricardo Pinheiro Alves 21 de novembro de 2017 às 20:43

Brexit: "the softer, the better"

O mercado britânico é o quarto maior para a economia portuguesa, representando 10% das exportações nacionais e um total de 7,5 mil milhões de euros em vendas para vários milhares de empresas portuguesas.

O Brexit não deveria ser um acontecimento tão atraente para a opinião pública. Em sociedades desenvolvidas o que se espera é que, quando um país soberano declara que quer abandonar uma organização internacional, o esforço do país e da organização vá no sentido de minimizar as consequências negativas dessa saída.

 

A realidade, no entanto, não é necessariamente assim. O Reino Unido está dividido entre ficar ou sair de uma organização internacional. Esta divisão estende-se a todos os níveis da sociedade e traduz-se na falta de uma estratégia consistente para concretizar a saída. Para piorar, a União Europeia esforça-se por dificultar ao máximo a saída do Reino Unido, com receio de que outros países soberanos resolvam seguir o mesmo caminho, e ignorando não só a vontade (e as razões) do povo britânico como vivendo na ilusão de que a decisão de saída nunca se irá concretizar.

 

A consequência prática mais provável desta diferença é que não só os custos da saída não serão minimizados, como existe um risco elevado de que sejam mesmo maximizados. Tudo isto torna um problema que deveria ser de menor dimensão numa enorme questão que afeta diretamente todos os países dessa organização internacional. E entre estes países encontra-se o nosso.

 

O mercado britânico é o quarto maior para a economia portuguesa, representando 10% das exportações nacionais e um total de 7,5 mil milhões de euros em vendas para vários milhares de empresas portuguesas. A estas exportações acrescem outras que são feitas indiretamente por via das cadeias de valor, quando as empresas portuguesas vendem a fornecedores de empresas britânicas num terceiro país.

 

A eventual queda destas exportações teria efeitos pelo menos a dois níveis. O primeiro seria sentido pelas próprias empresas. Em setores como indústria alimentar, têxteis, vestuário, calçado, material elétrico e eletrónico, automóvel ou turismo, as empresas portuguesas poderiam perder até 12% do seu volume de exportações. Note-se que para estes setores as exportações funcionam como uma alternativa de mercado muito relevante, tendo registado um crescimento contínuo durante a crise económica recente.

 

O segundo é a nível macroeconómico. Estas exportações representam aproximadamente 1,7% do PIB português, tendo Portugal registado em 2016 um "superavit" de 4,2 mil milhões de euros no comércio com o Reino Unido. O desaparecimento destas exportações resultaria no regresso ao desequilíbrio da balança comercial portuguesa e teria um efeito negativo significativo no crescimento económico. Este efeito negativo seria ainda agravado pela perda de empregos. Segundo a OCDE, as exportações nacionais tendo como destino final o Reino Unido estão associadas a cerca de 100 mil empregos em Portugal (o que significaria a extinção de uma parte destes empregos).

 

Mas os efeitos seriam mais amplos. As empresas do Reino Unido são as segundas maiores investidoras em Portugal, a seguir às espanholas (e às sediadas na Holanda e no Luxemburgo, mas estas por razões fiscais). No total serão cerca de 400 empresas, a maioria nos serviços, que empregam 21 mil colaboradores e possuem 8% dos ativos detidos por empresas estrangeiras em Portugal. As multinacionais inglesas contribuem decisivamente para as exportações portuguesas (dados da OCDE mostram que as multinacionais exportam habitualmente mais de 50% da sua produção), pelo que os efeitos negativos totais poderiam ser bastante maiores.

 

Ninguém espera que todo este intercâmbio económico vá desaparecer de um dia para o outro. Mas a economia portuguesa deve preparar-se para todas as eventualidades de modo a prevenir que os efeitos negativos sejam significativos.

 

As empresas portuguesas podem pressionar para que o acesso ao mercado inglês se mantenha o mais aberto possível e, em simultâneo, devem pensar em mercados alternativos para substituir a quebra nas vendas que eventualmente venham a sentir.

 

As autoridades portuguesas, com o envolvimento da embaixada inglesa, se e quando apropriado, podem trabalhar concertadamente com os investidores ingleses em Portugal para que se mantenham e reforcem os seus investimentos e o emprego. Muitas destas empresas produzem em Portugal para fornecer mercados no exterior, incluindo o britânico.

 

A melhor forma de prevenir os custos para a economia portuguesa é garantir que o mercado britânico se mantém aberto. Portugal deve ter um contributo ativo para que haja um suave Brexit.

 

Nota: o texto reflete apenas a opinião do autor.

 

Diretor do Gabinete de Estudos do Ministério da Economia

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

A Inglaterra fartou-se do eixo franco-ALEMAO ,este foi avisado varias vezes q nunca se subordinariam a uma Alemanha ex nazi e ao novo eixo economico financeiro.Trump veio baralhar tudo e ajudar os ingleses.A renegociaçao dos tratados de forma bilateral pôs EU de joelhos.

Anónimo Há 3 semanas

O Brexit é um exemplo de política mal conduzida leva a consequências desastrosas. Mal preparado, mal debatido, e muitíssimo mal negociado só pode acabar mal. Os contribuintes da UE não podem pagar as mentiras e os disparates dos políticos britânicos!
Portugal tem é que aproveitar a oportunidade!