João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 18 de Outubro de 2016 às 19:48

Brexit para totós

Morosas e agrestes negociações, entre Londres, a UE e as capitais dos Estados-membros, vão marcar a secessão da Grã-Bretanha num processo penoso e particularmente prejudicial para os britânicos.

A linha dura anti-emigração de Theresa May surge desde já como exemplo da prevalência que assume questões internas - expedientes tácticos para assegurar a coesão do Partido Conservador e alvitres estratégicos capazes de apaziguar o eleitorado soberanista -, limitando a capacidade negocial de Londres.

 

Críticas em surdina revelaram sérios diferendos ao mais alto nível, designadamente as reticências do ministro das Finanças, Philip Hammond, quanto às consequências da política de emigração de May, enquanto a depreciação da libra e consequente alta da inflação alimenta a discussão sobre as opções do Banco de Inglaterra.

 

Flutuações cambiais e taxas de juro, fluxos de investimento e saldos da balança comercial vão pesar cada vez mais sobre o processo de decisão política no curto prazo e condicionar Downing Street.

 

As primeiras ondas de choque do Brexit levaram a chefe do Governo escocês, Nicola Sturgeon, a admitir a convocação de novo referendo sobre a independência, enquanto no município de Londres o trabalhista Sadiq Khan exige estatuto especial para a capital e a City clama por regime especial para serviços financeiros, investidores e especialistas estrangeiros.

 

Nos serviços de saúde, universidades e centros de investigação multiplicam-se as advertências sobre consequências negativas de restrições à entrada e permanência de emigrantes da UE.

 

Entre empresas agrícolas, em especial no Sudoeste, onde o sector representa 1,2% da economia regional em comparação com 0,7% a nível nacional, reina a incerteza quanto às consequências da perda de subsídios da PAC e limitação à contratação de mão-de-obra não qualificada.

 

Reivindicações de estatutos especiais alimentam polémicas susceptíveis de sapar a base de apoio parlamentar do actual Governo e de futuros executivos a que se soma a instabilidade da liderança trabalhista de Jeremy Corbin.

 

Reviravoltas parlamentares capazes de pôr em causa os resultados de 26 de Junho, levando, inclusivamente, à convocação de novo referendo, irão pairar nos cálculos a partir de 2017.

 

Tendo identificado a reivindicação soberanista de controlo de emigração e o repúdio da jurisdição do Tribunal Europeu de Justiça como questões essenciais para aplacar apoiantes do Brexit, May condicionou à partida as conversações.

 

A cooperação com a UE na defesa é, por exemplo, uma área dependente do acesso que empresas britânicas possam conseguir a mercados do continente e quaisquer fórmulas de excepção para sectores financeiros e de serviços obrigam, por sua vez, à aceitação da livre circulação e residência de pessoas, atendendo aos interesses de todos os Estados da UE.

 

A imprevisibilidade quanto a cedências mútuas decorrente das relações de força nos diversos países, de objecções e vetos a nível regional (como a Valónia acaba de demonstrar na oposição ao tratado comercial com o Canadá) vai desgastar sem qualquer ganho a UE e o Reino Unido.

 

Sem ter definidos os termos das relações com a UE, Londres não conseguirá encetar com proveito negociações com os Estados Unidos, a Índia, China ou Brasil.

 

Esta incerteza far-se-á sentir nas opções da UE sobre política ambiental, energética e de defesa, estratégias para contenção da Rússia, controlo de migrações e crises no Magrebe, África subsariana e Médio Oriente.

 

O Brexit é um pesadelo e só não entende quem não quer.

 

Jornalista

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5640533 Há 2 semanas

Quem não quer entender é Mrs May.