Francisco Seixas da Costa
Francisco Seixas da Costa 27 de julho de 2017 às 20:45

Brincar com o fogo

O PSD tem fortes responsabilidades políticas e uma história de luta pelo sistema democrático, no âmbito do pacto em que se baseia o modelo constitucional, para defesa da ética cívica em que assenta o próprio regime. 

A polémica em torno dos ciganos de Loures e o debate a propósito dos incêndios fez emergir um país político estranho. Pode parecer menos evidente a associação dos dois temas, mas têm algo de comum.

 

Todos sabemos existir um problema antigo com a integração da comunidade cigana em Portugal. O assunto sempre foi tratado com "pinças", ao longo dos anos, pela consciência de que envolvia um número de pessoas bastante limitado, de que se tratava de uma cultura maioritariamente ligada a setores sociais desfavorecidos e de que os mecanismos do Estado, embora com uma eficácia aquém do desejável, pareciam ir lidando com o problema de forma paulatina. Era consensual que conferir uma excessiva relevância ao tema, em especial trazendo-o para a arena política, poderia desencadear fáceis pulsões populistas, com impactos que extravasariam a sua própria circunstância. Tal como aconteceu.

 

O modo como um candidato autárquico, sedento de protagonismo e sem visíveis escrúpulos, explorou o caso, na certeza de poder recolher prosélitos votantes por seu intermédio, não espantou, porquanto a irresponsabilidade é apanágio dos oportunistas e dos demagogos. O que surpreendeu neste processo foi o facto de o partido que recrutou o candidato não o ter "enquadrado" de imediato após o incidente, retirando-lhe a indigitação ou obrigando-o a uma retratação completa.

 

O PSD não é um partido qualquer na sociedade portuguesa. É um dos eixos centrais do regime e, com o PS, integra um compromisso implícito de gerar condições de governabilidade para o país, muito além dos ciclos em que ocupa o poder central. Porquê? Porque é também um grande partido autárquico, que ocupa em permanência uma fatia de poder local da maior importância. O PSD tem fortes responsabilidades políticas e uma história de luta pelo sistema democrático, no âmbito do pacto em que se baseia o modelo constitucional, para defesa da ética cívica em que assenta o próprio regime. Quando, há uns anos, vimos um seu líder sacrificar um candidato autárquico, antecipadamente vitorioso, por suspeitas de envolvimento em desqualificantes delitos, o país decente não deixou de ter um sentimento de admiração pelo caráter nobre do gesto então praticado.

 

A luta contra a discriminação e a exclusão social é uma das matrizes do nosso regime. A criação de uma "firewall" ao discurso social estigmatizante e às pulsões populistas, racistas ou xenófobas, integra um compromisso implícito que tem federado as forças com representação parlamentar. Foram mais de quatro décadas de entendimento, com vista a gerar um clima de decência cívica. Por isso, devo dizer que, como cidadão, me choca assistir a esta deriva estranha que, nos dias de hoje, atravessa o PSD, que sei também preocupar muitos dos seus simpatizantes, que se não sentem confortáveis com este tipo de opções.

 

E, de Loures, chegámos aos fogos. Começo pelo mais simples. Estou longe de considerar exemplar a atuação do Governo neste contexto. Há coisas que falharam e continuam a falhar e muito mais tem de ser feito. O Estado tem de projetar confiança, os cidadãos têm de ter a certeza de que estão em boas mãos.

 

Mas um tema desta gravidade justifica alguma "gravitas" no seu tratamento. Na sequência do incêndio de Pedrógão, o líder do PSD começou por ter uma atitude de Estado, dando prioridade ao combate à catástrofe e propondo, com racionalidade, uma comissão independente para avaliar serenamente o assunto. Mas essa serenidade durou muito pouco: logo surgiram uns "suicidas" que afinal não existiram e, nos últimos dias, o partido desembestou numa campanha sobre o "mistério" do número de mortos, colando-se às mais fantasiosas hipóteses, como se acaso acreditasse que havia algum misterioso interesse da parte do Governo em esconder a existência mais uma ou duas vítimas, como se isso alterasse significativamente a esmagadora dimensão da tragédia. Por isso, como português, lamento sinceramente ver um partido central da nossa democracia a brincar com o fogo.

 

Embaixador

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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JOSE Há 3 semanas

De que tem medo, Dr. Seixas da Costa? Da verdade? O país interior está ABANDONADO, e arde, sem os governos quererem saber. Isso não o preocupa. Estamos na "época dos incêndios", como se 33 graus de temperatura impliquem forçosamente fogos. O desgoverno de Portugal.

SALAZAR Há 3 semanas

O PSD MORREU HÁ MUITOS ANOS. AS PESSOAS É QUE FAZEM OS PARTIDOS E OS PAÍSES.

"Sr. Embaixador", apostaste no cavalo errado Há 3 semanas

Caro comentador "Sr. Embaixador", a questão aqui é bem outra.
Não se trata de política, porque nessa matéria, o PSD não é exemplo para ninguém, na desgovernação ultraliberal que fez do bolso dos mais frágeis.
A questão aqui é o desmascaramento que deve ser feito do "politicamente correcto"

Sr. Embaixador Há 3 semanas

Brincar com o fogo!?
Então o governo do costa, minoritário mas com maioria parlamentar, escolhe para parceiros a extrema esquerda, a caduca e a infantil, para governar e agora o PSD é que é irresponsável ?!
Que profunda desonestidade intelectual, para uma pessoa tão preocupada com o bem do PSD.

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