Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 16 de dezembro de 2016 às 00:01

Caixa preta

Habituámo-nos a voar, a toneladas de metal a flutuar no ar, como algo natural. Habituámo-nos a um dia-a-dia assente na mobilidade comunicacional e, não menos importante, na mobilidade material. Habituámo-nos a voar.

Bem no centro desta história estão os detalhes, a aprendizagem e a ultrapassagem dos erros. A indústria da aviação tem uma lição importante para a vida profissional, para o alto desempenho no mundo competitivo de hoje. Chama-se caixa preta. Trata-se de um mecanismo que regista o que se passa nos seus sistemas mecânicos, informáticos e humanos de um avião. Quando as coisas correm mal, como infelizmente aconteceu nos últimos meses por várias vezes, a caixa preta pode fazer a diferença. E não apenas esclarecendo o que aconteceu. Mas também, ao compreender onde as coisas falharam, em apoiar o estudo do que alterar para no futuro se impedir acidentes do género.

 

Porque é que quem salvou 155 pessoas, aterrando num rio um avião com os motores danificados, é sujeito a um inquérito exaustivo sobre se fez bem ou se fez mal? O filme "O milagre do rio Hudson", que esteve recentemente nos cinemas portugueses, conta a história do voo da US Airways de 15 de Agosto de 2009. Poucos segundos depois de descolar, o avião ficou com os dois motores avariados, na sequência de um choque com um bando de pássaros. Aterrou no rio Hudson em Nova Iorque, num dia de temperaturas negativas, com a água do rio a 2 graus. Tripulação e passageiros: todos se salvaram.

 

Mas antes de ser o herói da história, o capitão e a sua equipa foram sujeitos a um inquérito implacável. Nada de pessoal, tudo de factual. Caixa preta, gravação das vozes no cockpit, resgate dos motores, simulações em computador, etc. Porquê?

 

A resposta não é apenas parte deste caso; é a resposta da aviação e é uma lição sobre progresso, melhoria e alto desempenho. Porque os erros na aviação se pagam muito caro. A investigação do que correu mal, do que se passou fora do comum, é central na melhoria constante que é a história da aviação. O que aconteceu no rio Hudson, um milagre como se diz, foi possível por causa de 100 anos de progresso; de melhorias resultantes do estudo de acidentes anteriores; a aterragem na água beneficiou de sistemas automáticos de correcção de pilotagem, instalados actualmente em todos os Airbus, melhorando a inclinação do aparelho até ao contacto com a água; o checklist que os pilotos utilizaram - hoje standard em situações de emergência - foi elaborado na sequência de uma série de acidentes ocorridos nos anos 1930, etc.

 

O caso do rio Hudson correu bem, mas melhor era ter sido um voo normal. Os ensinamentos agora colhidos vão ajudar a prevenir acidentes do género. Na obra "Caixa Negra", acabada de publicar entre nós, Matthew Syed, o autor, refere que a aviação tem uma das mais importantes lições para o alto desempenho: o sucesso é construído com base no estudo dos fracassos.

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

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