Camilo Lourenço
Camilo Lourenço 31 de maio de 2016 às 07:00

Camilo Lourenço: Nós é que temos de mudar; não os outros!!!

Há seis datas-chave na História da III República portuguesa: 1978, 1983, 1986, 1992, 1999 e 2011.
A primeira (1978) foi o primeiro choque da Esquerda revolucionária (whatever that means) com a realidade: confrontado com um grave desequilíbrio das contas externas, o governo (chefiado por Mário Soares) teve de chamar o Fundo Monetário Internacional.

A segunda data (1983) foi novo choque com a realidade: políticas económicas erradas (seguidas por um governo de direita – Pinto Balsemão) conduziram a novo pedido de ajuda externa. Quem pegou o toiro pelos cornos foi novamente Mário Soares.

A terceira data (1986) foi a adesão à então Comunidade Europeia. Com acesso a novos mercados, afluxo de investimento estrangeiro e entrada de fundos estruturais o país embalou para um crescimento sustentado. De repente parecia que Portugal rompera com os erros anteriores e entrara no caminho do desenvolvimento…

A quarta data (1992) foi novo grande avanço – o país abandonava a miserável desvalorização da moeda, que estimulava o empobrecimento, para adotar câmbios fixos (mais ajustáveis). A partir daqui o cenário de entrada no futuro clube da Moeda Única tornava-se mais credível.

A quinta data (2000) foi a conclusão de um esforço hercúleo, iniciado nos anos 80: a entrada no Euro. O problema é que as nuvens já se adensavam no horizonte: desde 1996 Portugal iniciara um processo de aumento acentuado da despesa pública (à media de 3,8 mil milhões de euros por ano, no período 1996-2000).

Resultado: sem flexibilidade cambial, com aumento da despesa pública e privada, só sobrava um instrumento para incentivar o crescimento económico – a produtividade. Como esta estagnou, o PIB estagnou também: crescimento médio de 0,5% entre 2001 e 2014.

A 6ª data (2011) foi um novo choque com a realidade: um brutal desequilíbrio das contas externas (média de 10% do PIB de 2000 a 2010) ditou nova perda de financiamento dos mercados. E lá regressámos à tradição dos anos 70 e 80: os resgates externos. Com um violento aperto de cinto, muito para além do que havia sucedido em 1978 e 1983.

Depois deste breve excurso histórico sobra uma pergunta: qual é o problema português? A resposta é óbvia: falta de disciplina financeira, que injeta liquidez na economia, canalizada para consumo de produtos e serviços externos (por falta de oferta interna). Ou seja, aquilo a que chamamos a criação de riqueza não o é: quando alguém gasta o que não é seu, não fica mais rico por isso (sobretudo quando essa despesa é canalizada para atividades não reprodutivas…). E quando chega o momento de apertar o cinto (como sucedeu depois de 2011), não está a empobrecer. Está a regressar a um nível de desenvolvimento consentâneo com a sua produtividade!

A generalidade dos portugueses (direita e esquerda) não percebe isto. E quando confrontado com o inevitável ajustamento (três vezes desde 1974), recusa responsabilidades e atira as culpas para cima de outros: quantas vezes não ouviu a que a culpa da nossa dívida é de quem nos emprestou dinheiro?

É este aspeto da nossa personalidade coletiva que nos deve preocupar: quem passa a vida a atirar a culpa dos seus males para cima de outros é porque não quer mudar. Certo?

É possível fugir a esta sina? É. Mas precisamos de perceber três coisas: a única determinante da riqueza de um país é a produtividade. Ora isso não depende dos outros, depende das reformas (dolorosas) que queiramos fazer. A segunda é que a ideia de que se pode crescer à custa de estímulos financeiros (défice e dívida) é uma estupidez. A terceira é que para fugir a este ciclo vicioso só há uma solução: pormo-nos de acordo em relação a questões fundamentais de regime. O mesmo é dizer que Portugal nunca sairá deste ciclo de euforia-depressão (boom and bust em jargão económico) sem que PS, PSD e CDS votem conjuntamente um programa de reformas. Exatamente o contrário do que se passa neste momento…

Há outra solução? Há. Ficarmos amarrados a uma solução federalista, na Europa, que nos retire o poder de decisão. Como a função de emitir moeda já desapareceu, sobra a função orçamental. Quanto mais cedo no-la retirarem, melhor. Deixaremos de depender da sorte… 

Jornalista

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mais votado LeonardoL 31.05.2016

Tenho dificuldades em perceber o porque de tanta agressividade nos comentarios que aqui encontro. Pessoalmente nao gosto nem desgosto do autor ja que nao o leio vezes suficientes para avaliar, mas mesmo nao gostando, isso nunca me daria o direito de vir para aqui estrebuchar insultos (principalmente sob o escudo da anonimidade).
Sobre o artigo: spot on.
A falta de consistencia na adopcao de polticias estruturais pelos diversos partidos do poder, uma nao existente visao de longo prazo conciliada com uma populacao economicamente iliterada nao tem outro rumo senao o desastre financeiro. Vender medidas populistas e atirar as culpas para cima dos outros fica facil, e e’ tao caracteristico da democracia e mentalidade portuguesa.

comentários mais recentes
Anónimo 01.06.2016

Até que enfim que este homem tem uma ideia que se aproveita, embora a argumentação e os fundamentos não sejam os mais adequados.
O que tem de fazer mmudar? Acabar com os políticos corruptos e apostar na competência e no conhecimento em vez de apostar em amigos, compadres e boys. E, já agora, correr com a brigada da "reforma/Teodora/Medina Carreira (o tal que defende o desinvestimento na formação e pergunta para que servem tantos doutores? Já não há paciência para ouvir tanta asneira deste senhor. Porque será que ainda há quem lhe dê tempo de antena?), etc." e dar lugar a gente nova, com provas dadas,níveis de formação elevados e horizontes amplos.

victorps 01.06.2016

Muito bom o artigo. Necessariamente objetivo. Assim se pegam os touros pelos cornos, como fazem, dizem e escrevem os portugueses de coragem. No meu ponto de vista, enquanto houver uma esquerda pseudo intelectual a colocar a carroça (ou geringonça) á frente dos bois vamos andando sem rumo certo ou seja ao Deus dará.

Anónimo 01.06.2016

Muito bom. Excelente artigo!
Excelente a todos os níveis. Até nas conclusões.

david 01.06.2016

Muito bom. Excelente artigo!
Excelente a todos os níveis. Até nas conclusões.

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