Leonel Moura
Leonel Moura 15 de dezembro de 2016 às 20:40

Carrosséis

Esta semana tivemos uma manifestação dos empresários dos carrosséis e divertimentos afins. Foi pacífica, mas não deixou de ter o seu momento brejeiro. Um dos organizadores declarou que iriam aumentar os acidentes porque os empresários não têm dinheiro para a manutenção.

Vai sendo norma. Há gente que não resiste a reivindicar qualquer coisa sem fazer ameaças disparatadas. Neste caso é uma ameaça particularmente grave já que dirigida aos próprios utentes. Um verdadeiro tiro no pé. Espera-se que nenhuma autarquia ou entidade autorize estes carrosséis a funcionar sem comprovada realização da devida manutenção e sem uma rigorosa inspeção. Não se brinca com a vida das pessoas que pagam para se divertir.

 

O problema é que pagam cada vez menos. Os carrosséis não têm clientes. Poucos querem dar mais uma voltinha. Os empresários atiram as culpas para um IVA demasiado alto, 23%. Querem que baixe para os 6%. Mas é duvidoso que resolva a situação. A razão do declínio é outra. Os jovens da era digital não querem andar de carrossel. Já não é uma coisa excitante.

 

Os carrosséis são vítima da evolução tecnológica. Modernos, numa determinada época, eram indispensáveis em qualquer feira ou festa popular, mas hoje são um equipamento obsoleto, pouco atraente, perigoso por vezes. É chato dizê-lo, mas a solução para o problema não é baixar o IVA, é mudar de negócio. Este morreu.

 

Tanto mais que começam a surgir novos modelos de entretenimento que, de certa maneira, derivam das festas populares, mas integram o novo ambiente tecnológico em que vivemos. Um dos exemplos mais interessantes foi criado na Rússia em 2010 e dá pelo nome de Geek Picnic . Consiste num evento ao ar livre que combina divertimento, música, espetáculos, gastronomia com apresentações de ciência e tecnologia de universidades, grandes empresas e start-ups. A interação de tudo isto gera um ambiente impressionante que atrai milhares de jovens, na sua maioria "geeks", ou seja, jovens informados e formados nas novas tecnologias. É claramente também uma alternativa aos estafados concertos rock que todos os verões enchem o nosso país de norte a sul. Patrocinados por marcas de cerveja ou operadores de telemóveis são repetitivos e desinteressantes, tentando recriar uma cultura, a do rock, que já não existe há muito. Os concertos rock estão aliás mais perto dos carrosséis do que imaginam. E também do seu destino.

 

Pelo contrário, o modelo Festival Geek está em franca expansão. Em 2017, o Geek Picnic realiza-se em 6 cidades de três continentes. Um dos temas principais é a inteligência artificial.

 

Em suma. Este é um tempo de destruição do velho e criação do novo. O que deixa muita gente desesperada, destrói negócios e formas de vida com décadas ou mesmo séculos de existência, mas não há nada a fazer, a mudança é irremediável. Resistir é perder tempo.

 

A destruição gera oportunidades. Apesar do excesso de otimismo empreendedor, da moda das start-ups e da insistência na tecla da inovação, a verdade é que as oportunidades existem mesmo. Não é fácil, nem dá milhões, mas o potencial de criação do novo é uma realidade.

 

Os carrosséis do futuro estão a ser inventados. São eles que irão permitir desenvolver novas atividades e um novo tipo de divertimento. Certamente menos "inútil", nesse passar o tempo às voltas numa roda. O divertimento no futuro será útil, combinará o lúdico com o científico ou o artístico. Servirá tanto para distrair como para imaginar novas possibilidades. É nisso que nos devemos concentrar.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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