Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 15 de janeiro de 2018 às 10:18

Carta aberta aos amantes da bitcoin

Não sou um anti-bitcoin, nunca falei em fraude ou outra coisa. Deixo essas discussões para outros.
Num artigo publicado recentemente, dediquei uma pequena parte ao meu pessimismo sobre a evolução dos preços da bitcoin, a mais popular "cryptocurrency". Essas breves linhas sobre o tema levaram a que recebesse mais de 200 e-mails dos defensores da bitcoin, indignados com o meu pessimismo. Em vez de lhes responder individualmente, como sempre faço, optei por escrever este artigo, em jeito de carta aberta.

Caros amantes da bitcoin, não. Eu não desconheço o percurso da moeda virtual desde que foi lançada em 2009, muito menos toda a filosofia que lhe está subjacente. Também não desconheço o avanço tecnológico que a "blockchain" pode trazer e como poderá ser adoptada em várias vertentes das transacções financeiras no futuro.

Não, também não ignoro o facto de as ausências de comissões nas transacções serem uma das pedras basilares dos defensores das "crypto" e não foi por acaso que nasceram numa era marcada pela falência de alguns bancos e pelos camiões de dinheiro dos contribuintes que tiveram de ser lançados em auxílio de algumas entidades bancárias para não encerrarem as suas portas. Nem tão-pouco desconheço o facto de quase metade da população mundial não ter contas bancárias e passar a poder enviar facilmente dinheiro para o outro lado do planeta, sem recorrer a intermediação financeira.

Não desconheço que os mais puristas defensoras da bitcoin e suas congéneres fazem-no pela defesa da privacidade e da liberdade pessoal, podendo até ser o símbolo de uma intenção de retirar poder dos governos para o dar às pessoas.

Não é nada disso que eu contesto. Não entro sequer nesses interessantes debates sobre a essência das "cryptos" e a necessidade ou não de terem surgido. Não sou um antibitcoin, nunca falei em fraude ou outra coisa qualquer. Deixo essas discussões para outros. Sou apenas alguém que prevê a implosão do preço das moedas virtuais e como a maior parte das pessoas que agora chega a esse mercado irá perder muito dinheiro.

Quanto vale uma bitcoin? 1, 100, 10 mil, 1 milhão? Ninguém tem uma razão fundamental para defender um preço em detrimento de outro e, por isso, é uma discussão estéril ou vazia de argumentos de ambas as partes. Mas, como em qualquer outro activo financeiro, aquilo que determina a subida ou a descida dos preços é a relação entre a oferta e a procura. E a bitcoin apenas continuará a subir enquanto a procura continuar a exercer maior pressão do que a oferta. E o sentimento existente no mercado está a chegar ao extremo que me faz acender o sinal de vermelho.

Permitam-me que vos conte dois episódios. No início de 2000, em conversa em minha casa, dizia que havia alguns sinais no gráfico da PT que eu não estava a gostar. A empregada doméstica que era analfabeta (literalmente) e que jamais participava em qualquer conversa sobre economia, rapidamente disse: "Oh, menino (bons tempos em que era jovem), olhe que as acções da PT vão subir muito." Fiquei incrédulo a olhar para ela, mas incapaz de concluir o que surgiria dois meses depois: a implosão do mercado e dois anos de autêntico pesadelo nos mercados financeiros. Em 2007, os mercados viviam dias de sonho e tive direito a alguns minutos de "prime time" no Jornal Nacional da TVI para falar sobre bolsa e sobre os ganhos que tantos estavam a obter. Uma vez mais, fui incapaz de perceber que quando a bolsa abre um noticiário em horário nobre e um simples analista tem direito a minutos nesse horário nobre, esse é um sinal que não deveria ser ignorado. O que se seguiu? Umas semanas depois, o mercado implodiu e a bolsa portuguesa afundou-se, ao lado dos mais tristes dias da nossa economia.

Se vos conto estas histórias é porque as semelhanças com o actual momento da bitcoin são enormes. O fenómeno das "cryptos" tem vindo a ganhar notoriedade, mas foi nos últimos dois meses que as notícias chegaram ao "mainstream". Jornais, revistas e televisões, ninguém quer deixar de falar destas moedas. A razão por que isso acontece é simples: tem audiências. Dois amigos meus convidaram-me para um almoço há umas semanas. Nenhum deles investe nos mercados financeiros e a razão para o convite era para obterem o meu conselho sobre as "cryptos", porque queriam entrar. As "exchanges" em que se transaccionam estas moedas têm todos os dias milhares de novas contas. As pessoas vêem os amigos ganharem dinheiro e não querem ficar de fora desta nova árvore das patacas e no Facebook partilham-se links para abertura de contas, com bónus para quem aconselha. A euforia não tem limites e, quando se olha para o gráfico, o céu parece ser o limite.

O CEO da JP Morgan veio retratar-se por ter afirmado, há alguns anos, que a bitcoin era uma fraude, em mais um sinal de que estar do lado errado deste foguetão pode ser letal. E, tal como disse no início desta carta aberta, bastou dedicar uma parte de um artigo a dizer que estou pessimista quanto à cotação da bitcoin para o meu e-mail ser inundado da mesma forma que em 2007 acontecia quando escrevia algo negativo sobre alguma acção.

As semelhanças são demasiadas. O optimismo e a euforia estão a atingir valores extremos. E a pergunta é sempre a mesma: quando a esmagadora maioria estiver dentro, quem vai fazer o mercado subir? E, nessa altura, quando olharem todos uns para os outros, a bitcoin "crasha".

Confesso não estar minimamente preocupado com quem tem experiência em mercados financeiros e está a negociar bitcoin sabendo dos riscos, querendo apenas "surfar" um dos mais épicos "bull markets" da História. O que me preocupa são as pessoas que estão agora a entrar, desconhecendo os riscos e que, quando o mercado implodir, irão comprar mais para baixar o seu preço médio, exponenciando as perdas e enfrentando a dureza de um "crash" com uma muito maior exposição do que aquela que tinham quando resolveram embarcar nesta aventura.

Caros amantes da bitcoin, antes de escrever este último parágrafo fui lanchar. No café, estavam computadores abertos com gráficos da bitcoin, com os amigos a discutirem o rumo da moeda. Os sinais de euforia estão por todo o lado. Como nos mercados accionistas em 2000 e 2007. Espero estar enganado e que todos continuem a ganhar dinheiro, mas já vi este filme. E acabou sempre mal.

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