Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 14 de dezembro de 2017 às 21:50

Casa de tijolos

No Relatório de Estabilidade Financeira publicado recentemente pelo Banco de Portugal, o elevado nível de endividamento da economia portuguesa, elemento transversal a todos os setores institucionais, é destacado como importante vulnerabilidade.

Dentro da área do euro, as sociedades não financeiras portuguesas ocupam a sexta posição em termos de grau de alavancagem. No caso de famílias e de administração pública, Portugal sobe algumas posições, sendo o terceiro país mais endividado nestas duas vertentes. No que se refere à dívida externa líquida (92,3% do PIB em setembro de 2017) - ou seja, dependência de poupança externa por parte dos agentes económicos nacionais, Portugal é novamente um dos líderes da tabela.

 

Se, em termos de posição relativa de nível de endividamento da economia portuguesa no contexto europeu, os últimos anos não trouxeram significativas alterações, no que concerne ao stock de dívida observaram-se reduções consideráveis. Com efeito, a dívida dos particulares em percentagem do rendimento disponível caiu cerca de 20 pontos percentuais (p.p.) desde o seu máximo registado em 2009 para 103% no primeiro semestre de 2017. Por seu turno, as empresas não financeiras empreenderam uma redução de 23 p.p. no seu endividamento face ao máximo observado em 2012, para 104% do PIB no final de junho deste ano. A velocidade do ajustamento tem vindo a abrandar e, desde 2015, o dinamismo económico tem proporcionado o maior contributo para a desalavancagem.

 

Estes progressos não se constatam ainda na dívida pública portuguesa, a qual em setembro último se situava em 130,8% do PIB, tendo-se mantido relativamente estável em torno de 130% desde 2013, atravessando períodos de contração económica e esforços de estabilização do sistema bancário. No final de 2017, antecipa-se a queda do stock da dívida pública para 126,2% do PIB e para 123,5% em 2018. Segundo o FMI, a redução da dívida em 2017 será mais veloz, situando-se no final do ano em 125,8%. Assim, Portugal junta-se ao grupo de economias europeias, no qual baixas taxas de juro conjugadas com um contributo do PIB nominal superior à taxa de juro promovem redução do rácio da dívida face ao PIB. Com este resultado, inicia-se uma trajetória declinante da dívida. Recorrendo a análises de sustentabilidade da dívida realizadas recentemente por instituições internacionais como o FMI ou agências de notação financeira, constata-se a existência de consenso em termos de robustez da queda do endividamento a choques adversos ao nível de atividade económica.

 

A política monetária poderá alterar o seu carácter acomodatício até final do próximo ano, conduzindo a taxas de juro mais elevadas. Contudo, os operadores de mercado acreditam que esta subida será gradual, ancorada no bom momento vivido pela economia europeia. Os agentes económicos portugueses, devido à redução do endividamento encetada, estão no presente menos vulneráveis a choques externos, designadamente por via de aumento dos custos de financiamento. Não obstante, pela dependência significativa de financiamento externo, variável em que Portugal é ainda um campeão mundial, a proteção face a estes choques releva-se precária. Pensando no conto dos três porquinhos, poder-se-á ter evoluído da casa de palha para a casa de madeira, mas a casa de tijolo ainda não terá sido alcançada.

 

Votos de boas festas.

 

Economista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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