João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 09 de janeiro de 2018 às 19:24

Centeno e o broche da princesa 

A princesa de Kent teve de tragar o fel pela sua condição, mas Mário Centeno é doutra cepa e em seus trajes de ministro faz alarde arrogante de privilégios pouco conformes à lisura política e à moral republicana.

"Questões de segurança" são razão quanto baste para Mário Centeno justificar altivo um pedido de lugares na bancada presidencial da Luz ao passo que o clamor de gente ofendida por um broche mourisco chega para levar a princesa de Kent a pedir desculpas a quem possa ter ofendido.

 

A aristocrata ficou "muito triste e angustiada", no dizer de seu porta-voz, ante acusações de racismo por apresentar-se com um alfinete de peito mourisco no banquete de Natal no palácio de Buckingham, a que pela primeira vez comparecia Meghan Markle, noiva do príncipe Henrique de Gales.

 

O negro broche da loura princesa de origem húngaro-alemã casada com o príncipe de Kent, primo direito da rainha, foi visto como pérfida insinuação ao noivado de Harry com a actriz nascida em Los Angeles de mãe negra e pai branco.

 

A pretensa insídia e o cadastro de tiradas racistas da princesa, filha de um barão nazi por sinal, desencadearam uma torrente de críticas e, sinal dos tempos, nem lhe valeu o velho princípio da aristocracia das ilhas britânicas: "Never complain; never explain."

 

Acontece que a valia social da aristocracia é questionável; os privilégios da parentela da monarca, alvo de crítica; e a própria Isabel II foi obrigada a acto público de contrição pela frieza que demonstrara após a morte de Diana no acidente de viação com o amante Dodi Al-Fayed na Ponte de l'Alma, em Paris, em 1997.

 

Pretensos valores magnânimos, ponderosos e altruístas das estirpes aristocráticas não colhem nos países ocidentais; a fidalguia de antanho acotovela-se com as estrelas do entretenimento e desporto.

 

A legitimidade de monarquias parlamentares e hereditárias, de resto, só subsiste na medida em que o núcleo restrito familiar das casas reinantes contribua por tradição e eficácia política para a estabilidade funcional de regimes democráticos.

 

O achincalhamento da princesa de Kent em prol da elevação de uma plebeia mestiça norte-americana recém-chegada à Casa de Saxe-Coburgo-Gota, rebaptizada Windsor durante a Grande Guerra, cumpriu-se, assim, a rigor para gáudio das massas num frenesim mediático de ódios, ressentimentos, admiração, temor e ciúme.

 

Que o broche da princesa, um "moretto" veneziano, nada tivesse que ver com amesquinhamentos racistas, mas antes honrasse uma tradição italiana de representação do mouro aristocrático vinda do Renascimento - patente também em "Otelo, o Mouro de Veneza", de Shakespeare -, é ironia fora do alcance de muito súbdito de Sua Majestade, mesmo de quem já tirou "selfies" no 69 da Praça de São Marcos onde fica a Joalharia Nardi, casa afamada por seus "moretti".

 

A princesa de Kent teve de tragar o fel pela sua condição, mas Mário Centeno é doutra cepa e em seus trajes de ministro faz alarde arrogante de privilégios pouco conformes à lisura política e à moral republicana.

 

Ela e ele tipificam dois mundos.

 

A aristocracia perdeu qualquer hegemonia de valores e subsiste como espectáculo sujeito às exigências das voláteis tendências da opinião pública.

 

Entre agentes políticos da democracia, por outro lado, não falta quem, aproveitando ao máximo cargos efémeros, exorbite privilégios para fitos pessoais que minam, de forma frequente e justificada, a confiança na sua honestidade, descredibilizando, por arrasto, as instituições.      

 

A promiscuidade entre figuras de monta, com relevo público ou influência de bastidor, dos meios políticos, financeiros, económicos, desportivos e artísticos, é uma das maiores pechas do regime democrático em Portugal.

 

Troca de favores, nepotismo, corrupção, são a consequência fatal de uma teia de relações em que necessariamente proliferam reais ou potenciais conflitos de interesse envolvendo agentes do poder político, administrativo, judicial e seus familiares.

 

Moral austera e perspicácia política seriam suficientes para evitar pedidos de favores ou aceitação de convites que possam suscitar legítimas dúvidas de potencial conflito de interesses.

 

O que está em causa não é o pretenso valor pecuniário do pedido ou aceitação de convite, mas o próprio acto de pedir ou aceitar. 

 

De forma reiterada os agentes políticos infringem regras de mero bom senso, refugiando-se numa casuística de alegado cumprimento do articulado da lei quanto a imparcialidade e integridade no exercício de funções de Estado.

 

A apresentação de justificações mais aparenta ser um acto hipócrita de homenagem do vício à virtude e o tom arrogante que frequentemente assumem as declarações de virgem ofendida do pessoal político não raro revela desprezo pelo discernimento alheio.

 

A princesa foi a Buckingham, sofreu ignomínias por um broche clássico, pagou pelos pecados e irrelevância da aristocracia.

 

Centeno foi à bola na bancada presidencial, aos costumes disse nada e deu mais uma machadada no bom nome de quem decide e governa.

 

Jornalista

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