António Moita
António Moita 10 de dezembro de 2017 às 17:30

Centenofagia

Mário Centeno foi eleito presidente do Eurogrupo. A não existência de pesos pesados na corrida e a lógica da repartição de cadeiras entre populares europeus e socialistas criou a oportunidade.

O Governo português soube aproveitá-la e o mérito do ministro das Finanças português fez o resto.

 

Os principais jornais europeus tratam esta eleição de forma surpreendente. Os mais condescendentes falam de sorte, outros mais azedos atribuem a decisão à vontade alemã de escolher uma marioneta. Já os mais politicamente corretos falam do fim da austeridade na Zona Euro.

 

Por cá, como sempre, a eleição de Centeno é a certeza de um futuro melhor para todos. O exemplo português dos últimos dois anos, e apenas destes, foi muito apreciado numa Europa sempre cética. O representante de um povo que gastava o seu dinheiro em "copos e mulheres" transformou-se da noite para o dia no "Ronaldo do Ecofin".

 

É evidente que uma eleição num contexto europeu merecerá sempre ser enaltecida. Para mais tendo sido escolhido alguém que, vindo de uma economia pequena e muito fragilizada e não tendo experiência política anterior, conseguiu fazer-se notado num meio fechado e com alinhamentos geopolíticos difíceis de ultrapassar.

 

Mas parece ser claro também que os tempos que estão a chegar não animam ninguém. Os impactos da negociação do Brexit, a reforma da Zona Euro, a necessidade de garantir o crescimento e a convergência entre Estados-membros, a incerteza que paira sobre mercados bolsistas supervalorizados, a insustentabilidade da dívida externa e a mais do que certa subida das taxas de juro, constituem uma combinação de circunstâncias que poderá fazer surgir uma nova tempestade perfeita.

 

Parece assim que provavelmente todos se irão querer alimentar de Centeno. Uma verdadeira "Centenofagia". Internamente exibindo-o como o mentor do revolucionário percurso escolhido. Na Europa, obrigando-o a dar a cara em tudo o que de mau vier a acontecer. Ainda não começou a trabalhar e já estou com pena dele.

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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comentários mais recentes
Invicta 10.12.2017

A comunicação social quando fala do homem, não diz a cantiga toda e fica-se a pensar que o dito, é um super homem. Assim a conversa é outra. Foi para o cargo, porque os que o poderiam fazer estavam interessados em voos mais altos e o resto, ainda era pior.

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