Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 11 de janeiro de 2018 às 19:04

Céu limpo

Antecipa-se uma evolução positiva das condições económicas nos mercados emergentes e desenvolvidos em 2018. Os principais organismos internacionais projetam aceleração do crescimento global.

Consumidores, empresários, trabalhadores, autoridades nos vários cantos do mundo relevam-se otimistas. Volvidos dez anos sobre a crise económica e financeira, as economias encontraram uma nova estabilidade. Os setores bancários deixaram de ser uma preocupação e os agentes económicos recuperaram confiança. Concretamente, assiste-se à melhoria das condições no mercado de trabalho, com as taxas de desemprego, nos EUA ou Europa, a ultrapassarem os patamares anteriores à crise e a inflação, embora baixa, afasta-se da vizinhança de zero. O comércio internacional, não obstante o temor de retrocesso no processo de globalização, revela sinais de boa saúde. O prosseguimento da normalização das condições monetárias nos EUA e o seu início na área do euro não despertam receios.

 

Nos últimos anos, as autoridades monetárias foram chamadas à liderança do processo de gestão da crise, compelidas a lançar mão de instrumentos não ortodoxos de política monetária. Neste momento, o bom momento económico sugere o abandono das medidas excecionais e o gradual regresso à normalidade. Nos EUA, a Reserva Federal já renunciou ao uso de medidas quantitativas e está pronta para embarcar na fase de redução do seu balanço, através de não reinvestimento de títulos em carteira que chegam à maturidade. Na área do euro, o BCE encontra-se prestes a encerrar o programa de compra de ativos, evoluindo para a fase de reinvestimento. Neste período, as taxas de juro diretoras recuperam parte da sua relevância perdida, embora as recentes subidas nos EUA façam acreditar que este processo será suave.

 

O bom momento da economia mundial favorece a alteração das condições monetárias, no sentido de uma orientação menos acomodatícia e recuperando-se margem de manobra para a gestão de crises futuras. Não se afigura existir argumentos bem fundados para antecipar convulsões nos mercados e, por decorrência, na atividade económica por via da esperada subida das taxas de juro. É verdade que algumas empresas, famílias ou países estão mais expostas a esse risco que outras. Contudo, a redução do endividamento (acompanhada de menor dependência de financiamento externo), designadamente nas economias mais afetadas por esta realidade, torna-as mais resistentes a choques. O canal rendimento dos agentes económicos, via valorizações de ativos financeiros, poderá revelar-se mais propenso a convulsões.

 

Depois de uma década conturbada e pejada de acidentes económicos mais ou menos disruptivos, a entrada numa fase de normalidade pode despertar algum desconforto e apreensão relativamente à capacidade de antecipação dos riscos latentes. Está-se a ser complacente? Negligencia-se a adequada preparação para os desafios futuros?

 

Após uma prolongada crise transformativa, que abalou alguns alicerces do mundo ocidental, entende-se que, no presente, se possa pretender gozar da normalidade, do fim de situações de exceção, previsivelmente, para se assistir a uma nova acumulação progressiva de desequilíbrios. Esta é uma inevitabilidade. Entretanto, deve aproveitar-se este momento de pausa para gozar os efeitos dos progressos e ajustamentos concretizados, preocupados em não cometer erros antigos e apostados em arriscar e pôr em pé novos projetos (e naturalmente cometer erros).

 

Economista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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