Simon Johnson
Jonathan Ruane
Simon Johnson | Jonathan Ruane 16 de janeiro de 2018 às 14:00

China, o dragão de inovação

A questão agora é se a China, bem posicionada para se tornar o líder mundial da inovação, concretizará essa oportunidade em 2018 ou pouco depois.

A China conquistou muito desde 1978, quando Deng Xiaoping iniciou a transição para uma economia de mercado. Em termos de progressos económicos, o ritmo de transformação da China nos últimos 40 anos não tem precedentes. O PIB cresceu cerca de 10% ao ano em média, ao mesmo tempo que o país reformulava os padrões de comércio global e se tornava a segunda maior economia do mundo. Este sucesso tirou 800 milhões de pessoas da pobreza, e a taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos caiu para metade entre 2006 e 2015.

 

A questão agora é se a China, bem posicionada para se tornar o líder mundial da inovação, concretizará essa oportunidade em 2018 ou pouco depois.

 

A transformação da China tem sido sustentada por uma expansão da produção industrial sem precedentes. Em 2016, a China vendeu ao exterior mais de 2 biliões de dólares de bens, 13% do total das exportações, em termos globais. Também prosseguiu a modernização económica através de investimentos maciços em infra-estrutura, incluindo pontes, aeroportos, estradas, energia e telecomunicações. Em menos de uma década, a China construiu o maior sistema de comboios de alta velocidade do mundo, superando os 22 mil quilómetros em Julho de 2017. Espera-se que o consumo anual aumente em quase 2 biliões de dólares em 2021, o equivalente a acrescentar outro mercado consumidor do tamanho da Alemanha à economia global.

 

No início deste mês, o CEO da Apple, Tim Cook, declarou que "a China deixou de ser um país de mão-de-obra barata há muitos anos, e essa não é a razão para vir para a China". As vantagens do país, no que respeita à produção, residem agora no seu ‘know-how’ avançado e fortes cadeias de fornecimento. Compreensivelmente, a liderança da China quer aumentar a produtividade e continuar a avançar na cadeia de valor.

 

No seu 13º Plano Quinquenal (em Maio de 2016), as autoridades estabeleceram o objectivo de a China se tornar uma "nação inovadora" até 2020, um "líder internacional da inovação" até 2030 e uma "potência mundial da inovação científica e tecnológica" até 2050. Também se comprometeram a aumentar os seus gastos em investigação e desenvolvimento para 2,5% do PIB e quase duplicar o número de patentes por cada 10 mil pessoas até 2020.

 

Para permitir essa inovação, os governos municipais estão a construir centros de tecnologia, na esperança de atrair talentos. A cidade de Guangzhou está a encorajar investigadores, empresários e empresas a fixarem-se lá. A General Electric comprometeu-se recentemente a construir o seu primeiro projecto biofarmacêutico asiático num bio-campus de 800 milhões de dólares. A cidade de Shenzhen já é conhecida como a "Silicon Valley do Hardware", e a área de Shenzhen-Hong Kong ocupa o segundo lugar em termos de clusters inovadores globais (medidos por patentes).

 

Os negócios na China fazem-se com uma rapidez e simplicidade que não se vê em nenhum outro lugar do mundo. A China está a adoptar totalmente modelos digitais, não apenas a digitalizar os velhos modelos. A ausência de sistemas antigos já lhe permitiu ultrapassar o Ocidente em áreas como pagamentos digitais, economia de partilha e comércio electrónico.

 

Os gastos totais em investigação e desenvolvimento na China (em percentagem do PIB) mais do que duplicaram de 0,9% em 2000 para 2,1% em 2016. Até agora, o aumento tem sido principalmente focado em investigação aplicada e desenvolvimento comercial, com apenas 5% dedicados a ciência básica. No entanto, a China ficou em 22º lugar no Índice Global de Inovação de 2017 (uma avaliação de 127 países e economias com base em 81 indicadores) à frente de Espanha, Itália e Austrália. A quota da China em publicações académicas de grande impacto cresceu de menos de 1% em 1997 para cerca de 20% em 2016.

 

O grande volume de licenciados (6,2 milhões em 2012, seis vezes o total de 2001), combinado com uma diáspora treinada internacionalmente e altamente qualificada, cujos membros regressam a casa em grande número, deverá produzir talento suficiente para alcançar o efeito desejado.

 

Os trabalhadores americanos ainda são consideravelmente mais produtivos do que os seus homólogos chineses. Em média, cada trabalhador chinês gera apenas cerca de 19% da quantidade de PIB que um trabalhador americano gera. Mas esta liderança está a ser corroída.

 

Outros factores a favor da América incluem 30 das 100 melhores universidades do mundo, uma cultura empreendedora e a forte exposição das suas empresas às forças do mercado. Tradicionalmente, isso levou as empresas americanas a competir de forma agressiva, muitas vezes dependendo da inovação.

 

Mas a indústria americana não é tão dinâmica como antes. Entre 1997 e 2012, dois terços das indústrias norte-americanas passaram por um aumento na concentração do mercado e um recorde de 74% dos funcionários está a trabalhar nesses operadores históricos (com 16 anos ou mais).

 

A administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece ter interpretado mal o que é necessário. Trump favorece um futuro mais proteccionista, o que retira pressão sobre as empresas dos EUA para serem competitivas a nível mundial ou verdadeiramente inovadoras. As universidades americanas estão a ser prejudicadas por mudanças no código tributário e cortes iminentes nos gastos - parte do que parece ser uma guerra mais ampla contra a ciência. E a imigração - uma fonte essencial de talento e ideias – deverá ser restringida.

 

Dadas as suas próprias políticas, e as dos EUA, a China está no caminho certo para se tornar o líder mundial da inovação. Até ao final de 2018, será mais evidente o quão fácil e rapidamente será escrito este último capítulo da história de sucesso da China.

 

Simon Johnson é professor da Sloan School of Management do MIT e o co-autor de White House Burning: The Founding Fathers, Our National Debt, and Why It Matters to You. Jonathan Ruane é co-fundador do curso de Negócios Globais de Inteligência Artificial e Robótica na Sloan School of Management do MIT.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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