Fernando  Sobral
Fernando Sobral 23 de novembro de 2017 às 19:30

Chovem borboletas sobre o Governo

A não ser pelo peso eleitoral do distrito do Porto, não vejo porque tem de ir algo para ali, quando nos últimos anos se retirou serviços públicos essenciais do interior do país a pretexto da contenção de custos.

Os marinheiros do "Beagle", o navio que transportava Darwin nas costas da Patagónia, gritaram de surpresa: "Chovem borboletas!" Foi a alucinação colectiva. Não estamos nas costas da Patagónia, mas olhando para o país parece que estamos na falta da surpresa inanimada: cada surpresa política faz-nos aumentar o espanto. E este nunca acaba. Já não se fala da inabilidade do Governo nos incêndios de Outubro (o caso Pedrógão Grande ou Legionella são coisas muito diferentes) ou de Tancos.

 

Fala-se da forma como empenhou muita da sua capacidade de manobra na forma como capitulou frente à pressão dos sindicatos dos professores ou, mais recentemente, e após a derrota da candidatura do Porto à sede da EMA, decidiu como se estivesse a fazer um chocolate instantâneo: deu o Infarmed a Rui Moreira. Qual é a razão? É um mistério da natureza, mas demonstra uma falta de visão política, de estratégia, e sobretudo uma aberração em termos de gestão dos serviços públicos e dos seus custos. Transportar para o Porto um serviço onde a importância dos técnicos é fulcral (estando eles radicados em Lisboa) é uma decisão que vai contra todas as lógicas da gestão sensata dos dinheiros públicos. Qual então foi a motivação de, num gesto de gestão inábil, dar um brinde a Rui Moreira, depois da trapalhada da substituição da candidatura de Lisboa pela do Porto, como se fosse um antidepressivo ou mesmo um Prozac? Avançar já para a pretensa "descentralização" (espera-se, para breve, a transferência do Ministério das Finanças para a Guarda e da ASAE para Sarilhos Pequenos)?

 

Qual é a razão para o ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, ligar de manhãzinha à presidente do Infarmed a dizer-lhe que ia tudo (ou quase tudo, porque pelos vistos Rui Moreira é agora porta-voz do Governo e dá informações que os responsáveis ministeriais não dão) para a Cidade Invicta? Há muito que considero que certos serviços públicos devem estar disseminados pelo país. Mas, a não ser pelo peso eleitoral do distrito do Porto, não vejo porque tem de ir algo para ali, quando nos últimos anos se retirou serviços públicos essenciais do interior do país a pretexto da contenção de custos. Contribuindo-se para a desertificação social, económica do interior.

 

Vivemos num tempo em que falta direcção política ao Governo. E em que voltamos ao país que Oliveira Martins descrevia em 1888, porque havia caudilhos a mais: "Temos o sr. Serpa e o sr. Lopo Vaz mikado e taikum do Japão regenerador; temos o sr. Hintze Ribeiro mais ou menos rebelde, insurgindo-se contra o poder usurpado pelo shogun; temos o sr. Barjona que forma um bando aparte, namorando com um sorriso búdico os diversos lamas que pisam o templo sagrado: o sr. Manuel Vaz, o sr. Marçal Pacheco, o sr. Tomás Ribeiro, no porto-franco, e o sr. Dias Ferreira no seu voluntário isolamento. São pelo menos oito caudilhos, com ou sem milícia mais ou menos japonesa".

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comentários mais recentes
Anónimo Há 2 semanas

Se fosse para transferir do Porto para Lisboa, de certo que o seu comentário seria diretamente inverso. Nunca vi tamanha ou qualquer celeuma quando empresas sediadas no Porto se mudam para Lisboa, ignorando os seus colaboradores.
Seguindo o ditado "no Norte trabalha-se", talvez seja esse o medo...

Mr.Tuga Há 2 semanas

CERTISSIMO!

Estes tipos DESPESISTAS sem visão são uma vergonha! Mas a culpa é do povão bronco e imbecilizado por chutadores e comentadeiros de futebóis....
Como criar PROBLEMAS e DESPESA de forma totalmente descabida e desnecessária....