João Costa Pinto
João Costa Pinto 20 de março de 2017 às 19:05

Cinco caminhos para a Europa?! - (XCII)

A chanceler alemã, numa actuação que comprova a sua habilidade e sagacidade políticas, levou a cabo uma manobra de elevado risco, com implicações muito complexas sobre o futuro da Europa do euro.

1. A incapacidade política para dar respostas em tempo útil às crises financeira e migratória fragmentou e deixou numa encruzilhada a Europa do euro. Os cinco cenários do Livro Branco de Juncker são a expressão dos riscos que o projecto europeu está a correr. O presidente da Comissão apresentou cinco caminhos, sem que em nenhum deles se toque, sequer ao de leve, problemas centrais: dívida, baixo crescimento e desemprego. Juncker apresentou um documento claramente elaborado à pressa, com caminhos que vão desde um cenário que implicaria o desmantelamento da Zona Euro - cenário 2: "Nada para além do Mercado Único", até ao que propõe o avanço conjunto para uma União Financeira e Fiscal - cenário 5. Pelo meio, deixa ainda um cenário - cenário 3 - que, a ser adoptado, corresponderia a uma Europa a várias velocidades - "Those who want more do more."* Permaneço convencido de que só se entende o alcance desta iniciativa do presidente da Comissão à luz do que se passou a seguir. Merkel e o politicamente moribundo Hollande, acompanhados pelo italiano Gentiloni e pelo espanhol Rajoy, reuniram-se dias depois para declarar o seu apoio a uma espécie de Europa "à la carte"**. Solução que devido aos seus riscos foi veementemente afastada no passado e que, no essencial, corresponde ao referido cenário 3 de Juncker. Deste modo, a chanceler alemã, numa actuação que comprova a sua habilidade e sagacidade políticas, levou a cabo uma manobra de elevado risco, com implicações muito complexas sobre o futuro da Europa do euro. Acenou aos europeus descontentes - dentro e fora da Alemanha - dizendo-lhes que não têm de votar em candidatos ou partidos anti-Europa, para alterar o rumo que tem vindo a ser seguido. Deixou um aviso aos países com evolução política hostil, de que não poderão bloquear o movimento de integração, seja ele qual for - a situação polaca é, a este respeito, óbvia. Ainda estende uma mão aos ingleses - partidários ou não do Brexit - dirigindo-lhes um forte sinal político, com impacto sobre o quadro em que as negociações de saída podem vir a decorrer.

 

2. Mas, além destes efeitos de natureza política, um movimento de integração a várias velocidades terá implicações inevitáveis e profundas - tanto de natureza institucional e jurídico/regulamentar, como de organização e funcionamento dos mercados - sobre a Zona Euro. As economias do euro que venham a ficar para trás - por opção ou por não cumprirem critérios técnicos de selecção que venham a ser estabelecidos - ficarão ainda mais vulneráveis e expostas às pressões dos mercados. Na ausência de adequados mecanismos de suporte das economias mais frágeis, a Zona Euro irá fragmentar-se com a constituição de um ou mais grupos de economias consideradas de maior risco - em particular aos olhos das agências de "rating", dos aforradores e dos investidores. Evolução que tornará ainda mais complexa e difícil a actuação da Política Monetária Única, à medida que os mercados passem a distinguir zonas euro mais fortes e mais fracas. Fragmentação que, a verificar-se, colocaria a prazo em risco a integridade da União Monetária, i.e., do próprio euro, pelo menos tal como o conhecemos hoje. Tudo indica, no entanto, que teremos de esperar até às eleições alemãs para fazer uma avaliação mais objectiva do verdadeiro alcance da manobra da Srª. Merkel.

 

* "Those who want more do more": "Aqueles que querem mais fazem mais"

 

**"À la carte": "À lista"

Economista

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