Edson Athayde
Edson Athayde 12 de dezembro de 2017 às 20:10

Citadores sem lei

Darwin criou a teoria da evolução das espécies, não a frase: "A cada boca uma sopa." Como acho pouco provável que Gandhi tenha liderado povos por lembrar: "A verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima."

Recorro-me de um tema recorrente: o temporal de citações que se abate sobre as redes sociais.

Trata-se de um tópico complexo. Já Einstein dizia: "Cite os bons e serás como eles."

 

Não, Einstein não disse isso. Nem Madre Teresa de Calcutá. Nem o gajo que canta o "Despacito".

 

E é esse o problema. As pessoas passam e repassaram o que leem no Facebook sem o mais pequeno sentido crítico. Nem sequer se dão ao trabalho de pesquisar no Google as fontes e os sentidos das afirmações originais.

 

Como uma vez já disse, "tenho a certeza de que Eça de Queiroz não é o autor original da afirmação: 'Deus ajuda a quem cedo madruga.' Não estou a ver Machado de Assis escrever: "É assim que a porca torce o rabo."

 

Darwin criou a teoria da evolução das espécies, não a frase: "A cada boca uma sopa." Como acho pouco provável que Gandhi tenha liderado povos por lembrar: "A verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima."

 

Fernando Pessoa, Jim Morrison, Clarice Lispector, Woody Allen, Paulo Leminski, Beethoven, Neil Armstrong (na maioria das vezes confundido com o ciclista), Freud, Nietzsche, Tolstoi (ou qualquer defunto russo), são apenas algumas das mais recorrentes vítimas dos citadores sem lei.

 

Até citações que aparentemente são certificadas pela História e portadoras de um "pedigree" respeitável podem enganar. Afinal, Sherlock Holmes nunca disse: "Elementar, meu caro Watson." Ao menos Conan Doyle nunca escreveu tal frase nos seus livros.

 

Outra citada por tudo ou por nada: "Discordo do que dizes, mas vou defender até à morte o teu direito de o dizer." Essa é atribuída a Voltaire, mas parece que só surgiu numa biografia sobre o filósofo.

 

Uma que fiquei pasmo quando soube ser mal atribuída: "E, no entanto, ela move-se." Sempre achei que fosse de Galileu. Não é.

 

Até a insuspeita "Vamos enterrar os mortos e cuidar dos vivos", que até outro dia tinha como filha legítima do Marquês de Pombal, descobri que tem outro Marquês (o de Alorna) como pai.

 

E assim vamos de erro em erro. A tomar alhos como bugalhos. A chamar Jesus de Genésio. A confundir a estrada da Beira com a beira da estrada.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, citando Shakespeare: "Nunca confie em nada do que lê na internet."

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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