Michael Spence
Michael Spence 22 de outubro de 2017 às 14:00

Combater o crescimento não inclusivo

Reunir pessoas que discordam ou até que desconfiam umas das outras é o primeiro passo para a construção de uma base para a acção colectiva no futuro.

Há vários anos, tive o privilégio de presidir uma comissão sobre o crescimento nos países em desenvolvimento. Os seus membros tinham tido experiências económicas e políticas significativas no mundo em desenvolvimento e, apesar das suas diferenças, todos concordaram em certos pontos cruciais. Dois deles ainda se destacam na minha memória.

 

Primeiro, como concluímos no nosso relatório final, os padrões de crescimento não inclusivos acabam sempre por falhar. Esses padrões não conseguem produzir o elevado crescimento sustentado que é necessário para reduzir a pobreza e cumprir as aspirações humanas básicas para a saúde, segurança e a oportunidade de contribuir de forma produtiva e criativa para a sociedade. Subutilizam e utilizam mal recursos humanos valiosos; e muitas vezes dão origem a turbulências políticas ou sociais, muitas vezes marcadas pela polarização ideológica ou étnica, que conduzem a amplas mudanças políticas ou mesmo à paralisia política.

 

A nossa segunda grande conclusão foi que o crescimento sustentado exige uma estratégia coerente e adaptável baseada em valores e objectivos partilhados, confiança e algum grau de consenso. Naturalmente, é mais fácil dizer do que fazer.

 

Muitos países em desenvolvimento passaram por grandes períodos de crescimento lento ou sem crescimento. Em alguns casos, os líderes de um país estão simplesmente confusos e não entendem o que precisa de ser feito. Na maioria dos casos, porém, os ingredientes de um "modelo de crescimento" eficiente são bem conhecidos e o problema é a falta de consenso político ou social sobre a forma de o implementar.

 

Alcançar um maior equilíbrio de crescimento raramente é uma transição gradual ou incremental. Exige um salto descontínuo nas expectativas e políticas, e uma mudança fundamental no consenso político e social. Quando essas mudanças ocorrem, a liderança desempenha um papel crucial, fornecendo aos cidadãos uma visão alternativa, baseada em valores comuns, que todas as partes interessadas podem suportar. Essa liderança pode vir de cima, de baixo, ou de um grupo representativo. Mas, como mostra a persistência dos equilíbrios de baixo crescimento em muitos países, essa liderança muitas vezes não existe de todo.

 

Os efeitos de contágio do crescimento não inclusivo já são evidentes em quase todos os lugares, em graus variados, sob a forma de polarização social, incoerência e impasse político, e uma perda generalizada da confiança pública. A este respeito, a experiência dos países em desenvolvimento tem lições potencialmente importantes para os decisores políticos e as diversas partes interessadas nas economias avançadas.

 

Houve algum progresso na identificação dos factores que levaram a inclusão económica a diminuir nas últimas três décadas. Isso é importante: sá através da compreensão da natureza do desafio podemos desenvolver respostas mais eficazes. Se diagnosticarmos mal o problema com uma análise errada ou apressada, a nossa resposta será ineficaz e, provavelmente, até contraproducente.

 

Dito isto, as análises realizadas até agora ainda não geraram uma consciência generalizada da ameaça que o crescimento não inclusivo representa para a produtividade e o desempenho económico. Os efeitos económicos adversos do crescimento não inclusivo crescem e multiplicam-se lentamente ao longo do tempo, e continuarão a aumentar se não houver uma acção colectiva - geralmente, mas não necessariamente, manifestada através do governo - para mudar os padrões de distribuição prevalecentes.

 

Alguns não concordarão com esta proposição, porque acreditam que os factores que estão por trás do desempenho económico e do dinamismo são independentes dos padrões distributivos. Mas gostaria de lembrá-los da segunda lição da experiência dos países em desenvolvimento: os padrões de crescimento não inclusivos prejudicam a confiança e, eventualmente, a governança, reduzindo a capacidade dos decisores políticos para sustentar políticas e estratégias que suportam um crescimento elevado.

 

A verdade é que uma boa análise tem as suas vantagens, mas a mudança não acontecerá sem uma ampla convergência social e política em torno de valores e objectivos partilhados - algo que não existe em muitos países hoje. As pessoas precisam de confiar umas nas outras e nos seus líderes, e precisam de concordar sobre a forma de avaliar e responder às tendências de polarização ao nível económico e social.

 

Ao mesmo tempo, a inacção contínua alimentará a alienação, criando um círculo vicioso de desconfiança e paralisia que terá de ser quebrado para que possa existir uma acção efectiva. Já existem muitas iniciativas importantes dedicadas a várias dimensões do desafio de inclusão, que compreendem não apenas a desigualdade de rendimentos e riqueza, mas também a automação, inteligência artificial e o futuro do trabalho. Apesar das suas boas intenções, resta saber se alguma destas iniciativas abrirá caminho para respostas políticas eficazes.

 

O valor das boas análises sobre estes problemas complexos não deve, porém, ser menosprezado. Mas não podemos assumir que acertar no diagnóstico será suficiente para superar o bloqueio político. O outro ingrediente chave é o envolvimento directo. Restaurar a confiança pública exigirá um compromisso profundo e sustentado, e um novo consenso suficientemente amplo para superar as divisões políticas e sociais que estão hoje generalizadas em todas as economias avançadas.

 

Deste ponto de vista, a proliferação de comissões e outras iniciativas estruturadas em torno da inclusão, que poderiam parecer excessivas e redundantes em circunstâncias menos polarizadas, são realmente muito encorajadoras. Convocar vozes diversas das empresas, da indústria, do trabalho, do governo, da academia e da sociedade civil - e fazê-lo com a maior frequência possível - é exactamente o que precisamos agora.

 

O aspecto do envolvimento na missão de crescimento inclusivo pode parecer um pouco nebuloso, especialmente ao lado da análise concreta. No entanto, é crucial. Reunir pessoas que discordam ou até que desconfiam umas das outras é o primeiro passo para a construção de uma base para a acção colectiva no futuro.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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