Robert Shiller
Robert Shiller 04 de Outubro de 2016 às 20:00

Combater a próxima crise financeira mundial

Os fundos do mercado monetário são uma alternativa aos bancos para guardar o dinheiro dos clientes, que propõem taxas de juro mais elevadas mas sem a garantia que protege os depósitos bancários em muitos países.

O que querem as pessoas dizer quando criticam os generais por "travarem a guerra anterior e não a actual"? Certamente não querem dizer que os generais pensam que se confrontarão com os mesmos sistemas bélicos e os mesmos campos de batalha. Eles não são assim tão ingénuos. O erro que os generais cometem situa-se a um nível mais subtil. Os generais são por vezes lentos a desenvolverem planos e artilharia para esses novos sistemas de armamento e novos campos de batalha. E um facto igualmente importante é que eles por vezes assumem que a psicologia da opinião pública e as narrativas que influenciam a moral das tropas – e que desempenham um papel tão importante para alcançar a vitória – são idênticos aos da última guerra.

 

O mesmo acontece com os reguladores, cuja função é evitar crises financeiras. Pelos mesmos motivos, poderão ser lentos a reagir a novas situações. Eles tendem a ser lentos na adaptação à evolução da psicologia da opinião pública. A necessidade de regulação depende da percepção pública da crise anterior e, tal como eu e George Akerlof defendemos no livro Animal Spirits, estas percepções dependem em grande medida da evolução das narrativas populares.

 

Os últimos relatórios de progresso do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB, na sigla em inglês) em Basileia salientam melhorias nos regulamentos em matéria de promoção da estabilidade em 24 das maiores economias do mundo. O seu "Painel de instrumentos" identifica os progressos em 14 áreas regulatórias distintas. Por exemplo, o FSB dá elevadas classificações aos 24 países na implementação dos requisitos de capital baseados no risco de Basileia III.

 

Mas a situação não é, de todo, tranquilizadora. Os requisitos de capital baseados no risco podem não ser suficientemente elevados, tal como Anat Admati e Martin Hellwig argumentam no seu influente livro intitulado The Bankers New Clothes. E tem havido muito menos progresso numa dezena de outras áreas regulatórias listadas pelo FSB.

 

Consideremos, por exemplo, as normas relativas aos fundos do mercado monetário, que, de acordo com o FSB, apenas alguns países desenvolveram desde 2008. Os fundos do mercado monetário são uma alternativa aos bancos para guardar o dinheiro dos clientes, que propõem taxas de juro mais elevadas mas sem a garantia que protege os depósitos bancários em muitos países. Tal como acontece com os depósitos bancários, os investidores podem retirar o seu dinheiro a qualquer momento. E, tal como nos depósitos bancários, os fundos estão potencialmente sujeitos a uma corrida de pânico se um grande número de pessoas tentar levantar o seu dinheiro ao mesmo tempo.

 

A 16 de Setembro de 2008, alguns dias depois de ter começado uma corrida aos depósitos do banco norte-americano Washington Mutual, na sequência do anúncio da falência do Lehman Brothers, um grande fundo norte-americano do mercado monetário, o Reserve Primary Fund, que tinha investido na dívida do Lehman, viu-se em sérios apuros. Com os activos a totalizarem menos do que aquilo que devia aos investidores, o fundo parecia estar à beira de uma corrida ao dinheiro que lhe tinha sido confiado. À medida que o pânico aumentava junto da opinião pública, o governo federal – receando uma forte corrida a outros fundos do mercado monetário – decidiu garantir todos esses fundos durante um ano, com data de início a 19 de Setembro de 2008.

 

A razão pela qual esta corrida foi tão alarmante, a ponto de levar o governo a dar este apoio sem precedentes, decorre das narrativas que lhe estão subjacentes. Com efeito, o Reserve Primary Fund não perdeu tudo. Limitou-se a "fraccionar o dólar", o que significa que não podia pagar um dólar por cada dólar no seu livro contabilístico; mas ainda podia pagar 0,97 dólares. Então, porquê uma crise? Afinal de contas, os depositantes dos bancos perdem regularmente mais dinheiro quando uma inflação inesperada erode o poder de compra real das suas poupanças (somente o valor nominal desses depósitos é que está garantido). Mas as narrativas não se focam nesse aspecto. A perda do valor real devido à inflação não tem sido um tema proeminente da narrativa pública, nos EUA, há já muitas décadas, porque a estabilidade sustentada dos preços levou as pessoas a esquecerem-se disso.

 

Mas não se esqueceram da Grande Depressão da década de 1930, apesar de a maioria das pessoas actualmente vivas não serem ainda nascidas naquela altura. Em 2008, a narrativa da Grande Depressão foi reciclada um pouco por todo o lado, com todas as histórias pitorescas do pânico financeiro e das multidões furiosas às portas dos bancos fechados. Mas, por outro lado, as autoridades que são dignas de confiança diziam repetidamente que esses acontecimentos estavam historicamente distantes e não poderiam ocorrer de novo. No espírito de 2008, a reacção da opinião pública a um acontecimento relativamente menor tomou proporções impressionantes.

 

Foi preciso decorrerem praticamente seis anos após a crise para a Securities and Exchange Commission (SEC, autoridade reguladora dos mercados de capitais nos EUA, à semelhança da CMVM em Portugal) reduzir a vulnerabilidade dos fundos do mercado monetário, mediante a exigência de um "NAV flutuante" (valor líquido dos activos - net asset value [NAV]), o que significa que os principais fundos do mercado monetário já não prometem pagar um dólar por cada valor nominal de um dólar. Eles pagam a participação do depositante nas contas. Isto não oferece garantias contra perdas aos investidores dos fundos. Ainda assim, ajudará – plausivelmente – a evitar corridas, porque significa que súbitas retiradas por parte de alguns não penalizarão as contas de quem não levantou o seu dinheiro.

 

O quadro regulatório internacional mudou, para melhor, desde 2008, mas essas mudanças não conseguem antecipar todos os tipos de mudanças nas narrativas subjacentes aos estados de ânimo. Os reguladores poderiam ter imposto um NAV flutuante há algumas décadas; não o fizeram por não preverem uma narrativa que tornaria instáveis os fundos do mercado monetário. Não se poderia esperar que as autoridades reguladoras conseguissem prever a súbita atenção da opinião pública ao risco recém-descoberto das corridas às entidades financeiras não bancárias.

 

Enquanto tivermos um sistema económico que gera crescimento ao premiar os participantes e investidores inspirados, continuaremos a confrontar-nos com o risco de que os discursos e as histórias indesejáveis possam, súbita e temporariamente, esmagar a inspiração. Os reguladores devem contrariar os riscos implícitos dentro de estruturas intrinsecamente desestabilizadoras, tal como aconteceu com os fundos do mercado monetário. Mas as normas mais urgentes serão sempre relativas a uma determinada época e contexto, porque as narrativas mudam. E a forma como essas narrativas ecoam junto da opinião pública poderá uma vez mais revelar brechas na nossa armadura financeira.

 

Robert J. Shiller, prémio Nobel da Economia em 2013 e professor de Economia na Universidade de Yale, é co-autor, com George Akerlof, de Phishing for Phools: The Economics of Manipulation and Deception.

 

Direitos de autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Carla Pedro

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