Vinod Thomas
Vinod Thomas 29 de janeiro de 2017 às 20:00

Como a acção climática pode tornar a América grande novamente

Trump já quer investir em energia e infra-estrutura. Se o fizer de uma forma amiga do ambiente, os Estados Unidos colherão enormes benefícios – tal como o resto do mundo.

As alterações climáticas constituem o maior desafio para a humanidade. No entanto, o novo presidente dos Estados Unidos - o segundo maior emissor de gases de efeito de estufa do mundo e um actor crítico na política climática - não acredita que essas alterações estejam a acontecer, ou pelo menos que os seres humanos têm um papel nisso. Se Donald Trump quiser realmente "tornar a América grande novamente", como declarou o seu slogan de campanha, terá de mudar a sua atitude e abraçar a agenda climática.

 

Até agora, a situação não parece promissora. Apesar de uma montanha de dados científicos, Trump afirma que não há evidências de que os seres humanos contribuam para o aquecimento global. Uma vez até chamou as alterações climáticas de "embuste", inventado pelos chineses para tornar a produção dos EUA menos competitiva (embora, mais tarde, tenha voltado a fazer essa acusação). No entanto, não repensou o seu cepticismo mais amplo em relação às alterações climáticas conduzidas pelo ser humano.

 

Reflectindo essa linha de pensamento, Trump anunciou a sua intenção de reverter os limites de emissão de carbono para as centrais eléctricas alimentadas a carvão, intensificar a produção de combustíveis fósseis e reverter os apoios à energia eólica e solar. Também prometeu retirar os EUA do acordo global sobre alterações climáticas concluído em Dezembro de 2015, em Paris. Essa inversão seria catastrófica para os esforços globais para combater as alterações climáticas.

 

Assim como a recusa do presidente George W. Bush de assinar o Protocolo de Quioto sobre as alterações climáticas em 2005 iniciou uma espiral de emissões crescentes, uma decisão de Trump de não cumprir os compromissos dos Estados Unidos, no âmbito do acordo de Paris, poderia levar outros a seguirem o exemplo. Afinal, muitos países já estão preocupados com os custos de cumprir os seus compromissos nacionais, especialmente numa altura de recuperação económica lenta. E a utilização de combustíveis fósseis continua, na maioria das actividades económicas, mais barata do que a utilização de energia mais limpa (quando não se tem em conta os danos ambientais relevantes).

 

É claro que, a mais longo prazo, a utilização de combustíveis fósseis aumentará os custos dos cuidados de saúde e impedirá a produtividade dos trabalhadores. Além disso, há os custos económicos e humanos dos desastres relacionados com o clima, cada vez mais frequentes e graves, incluindo inundações, secas, tempestades e ondas de calor, que já estão a crescer em todo o mundo.

 

Trump reuniu-se recentemente com o antigo vice-presidente dos EUA e activista climático Al Gore. No entanto, não parece provável que Trump mude de opinião acerca das alterações climáticas, até porque os membros do governo que ele escolheu cantam todos a mesma canção.

 

A boa notícia é que ele até pode não ter de mudar de opinião. Na verdade, há acções que Trump pode tomar para outros fins - impulsionar a economia dos EUA para reforçar a influência global da América - que também vão fazer avançar a agenda climática.

 

A primeira dessas acções é aumentar o investimento em investigação e desenvolvimento em sectores amigos do ambiente, como a eficiência energética e o armazenamento, os sistemas de energias renováveis e os automóveis mais seguros e pequenos. Avanços tecnológicos nessas áreas - que os EUA estão particularmente qualificados para realizar - seriam óptimo para os negócios. E construir produção de alta tecnologia e sectores eficientes ao nível da energia pode ser a melhor hipótese de Trump de cumprir a sua promessa de campanha de criar um grande número de empregos para os americanos.

 

Por muito que Trump gostasse de revitalizar o aço e o carvão nos chamados estados de Rust Belt que foram cruciais para sua vitória eleitoral, isso é provavelmente impossível (como trazer de volta um grande número de empregos no sector industrial do exterior). De facto, o carvão já está a sair dos EUA, uma vez que as preocupações de saúde e ambientais (e não apenas climáticas) obrigam as centrais a fechar.

 

A produção de gás natural, entretanto, está em máximos; a sua quota de 33% na geração de energia excede agora a do carvão. Fontes de energia renovável e energia nuclear também estão em ascensão, uma tendência que deverá continuar. Para criar um renascimento de Rust Belt, Trump deve capitalizar essas tendências, avançando com uma abordagem mais inovadora e eficiente ao nível da energia, como a que está a ajudar a sustentar o crescimento nas economias da Califórnia e Nova Iorque.

 

Trump poderia reforçar o progresso em indústrias dinâmicas, rentáveis e eficientes em termos energéticos, através da consolidação da eficiência energética nos códigos de construção. Edifícios novos e outras infra-estruturas devem incluir aquecimento, ar condicionado e iluminação de baixo consumo energético (incluindo uma melhor utilização da luz solar). Readaptar os edifícios existentes para um uso mais eficiente da energia também representa ganhos significativos. 

 

Há mais uma questão importante que pode convencer Trump, o céptico do clima, a sustentar o progresso na acção climática: preservar e aumentar a influência internacional da América. Outros líderes globais proeminentes - incluindo o presidente Xi Jinping, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e a chanceler alemã Angela Merkel - expressaram preocupações com a devastação causada pela poluição e pela degradação ambiental. Se os EUA repudiarem o seu papel de liderança nessa área, correm o risco de causar danos consideráveis à sua reputação.

 

A liderança nesta área exigirá que os EUA, acima de tudo, cumpram os seus compromissos de Paris. É vital que Trump mantenha o Plano de Energia Limpa da América, que estabelece metas estatais de redução das emissões de carbono, com o objectivo de reduzir as emissões nacionais de geração de electricidade em um terço em relação ao nível de 2005, até 2030. A extensão dos créditos fiscais para os produtores de energia renovável e os consumidores representaria uma grande avanço em direcção a este objetivo.

 

Mas mesmo atingir as metas do acordo de Paris não será suficiente para evitar um aumento catastrófico da temperatura global. Devemos superar as nossas metas fazendo progressos ao nível da energia limpa, transporte limpo e indústria limpa. Para isso, a experiência e o saber-fazer americano será indispensável.

Trump já quer investir em energia e infra-estrutura. Se o fizer de uma forma amiga do ambiente, os Estados Unidos colherão enormes benefícios – tal como o resto do mundo. Se o magnata que virou presidente não reconhece a ameaça que as alterações climáticas representam, deve pelo menos ser capaz de reconhecer uma tremenda oportunidade de negócios quando vê uma.

Vinod Thomas, professor visitante na Universidade Nacional de Singapura, é antigo Director Geral de Avaliação Independente do Banco Mundial.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

 

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