Michael Spence
Michael Spence 22 de dezembro de 2016 às 20:00

Como a desigualdade encontrou uma voz política

Os líderes políticos falam frequentemente sobre padrões de crescimento que, de forma injusta, distribuem os benefícios do crescimento. Mas fazem relativamente pouco sobre essa questão quando estão no poder.

Demorou muito tempo para que a desigualdade tivesse um impacto na política, como teve subitamente nos últimos anos. Agora que é uma questão central, as prioridades económicas nacionais têm de mudar muito para criar mais igualdade, uma sociedade e uma economia inclusiva. Se não o fizerem, as pessoas podem abraçar alternativas explosivas em relação aos seus governos, tais como os movimentos populistas que agora chegaram a muitos países.

 

Os líderes políticos falam frequentemente sobre padrões de crescimento que, de forma injusta, distribuem os benefícios do crescimento. Mas fazem relativamente pouco sobre essa questão quando estão no poder. Quando os países enveredam pelo caminho dos padrões de crescimento não inclusivo, o resultado, geralmente, é um desrespeito pela especialização, uma desilusão com o sistema político e com os valores culturais comuns, e uma ainda maior fragmentação social e polarização.

 

Saber a importância de como os benefícios económicos são distribuídos não é novo. Nos países em desenvolvimento, a exclusão económica e a desigualdade extrema nunca foram propícias a padrões de crescimento elevado no longo prazo. Perante estas condições, as políticas pró-crescimento são politicamente insustentáveis e, em última análise, resultam num distanciamento político, num mal-estar social ou mesmo em violência.

 

Nos Estados Unidos, o aumento das desigualdades tem sido um facto da vida, pelo menos, desde a década de 1970, quando a distribuição relativamente equilibrada dos benefícios económicos do início da era do pós-Segunda Guerra Mundial começou a tornar-se parcial. No final da década de 1990, quando as tecnologias digitais começaram a automatizar-se e a desintermediar os empregos mais rotineiros, a mudança na direcção dos rendimentos mais elevados e a desigualdade de rendimentos tornou-se rápida.

 

A globalização também desempenhou o seu papel. Nos 20 anos que antecederam a crise financeira de 2008, o emprego na manufactura nos Estados Unidos caiu rapidamente em todos os sectores, excepto no sector farmacêutico, mesmo com o valor acrescentado na manufactura a crescer. A perda líquida de emprego manteve-se próxima de zero apenas porque o emprego nos serviços cresceu.

 

De facto, grande parte do valor agregado da indústria vem de serviços como desenho de produto, investigação e desenvolvimento e marketing. Por isso, se tivermos em conta esta composição da cadeia de valor, a queda da manufactura – a produção de bens tangíveis – é ainda mais pronunciada.

 

Os economistas têm vindo a registar estas tendências há algum tempo. O economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, David Autor, e os seus colegas, têm cuidadosamente documentado o impacto da globalização e das tecnologias digitais, que reduzem a necessidade de mão-de-obra, nos empregos rotineiros. Mais recentemente, o êxito do livro do economista francês Thomas Piketty, O Capital do Século XXI, ampliou o nosso conhecimento sobre as desigualdades e descreveu as forças que possivelmente conduzem a essas desigualdades. Raj Chetty e Emmanuel Saez, dois jovens brilhantes e galardoados economistas, enriqueceram a discussão com uma nova investigação. E eu escrevi sobre algumas mudanças estruturais associadas a estes problemas.

 

Com o tempo, os jornalistas também abordaram estas tendências e seria agora difícil encontrar alguém que não tenha ouvido falar sobre "1%" – uma abreviatura usada para fazer referência aos que estão no topo das escalas da riqueza e rendimentos mundiais. Muitas pessoas preocupam-se agora com uma sociedade bifurcada: uma classe mundial de elite que está a prosperar e que se encontra no topo e uma outra classe que vive em stress e que engloba todas as outras pessoas. Ainda assim, e apesar destas tendências prolongadas, o status quo político e as políticas existentes continuam praticamente iguais desde 2008.

 

Para entender porque é a política demorou tanto tempo a preocupar-se com esta realidade económica, devíamos olhar para os incentivos e para a ideologia. No que diz respeito aos incentivos, aos políticos não foi dada uma razão boa o suficiente para que os padrões desiguais de distribuição fossem abordados. Os Estados Unidos têm limites ao financiamento de campanhas relativamente fracos, por isso as empresas e particulares ricos – nenhum dos quais em geral dá prioridade à redistribuição dos rendimentos – contribuíram com uma percentagem desproporcional de fundos para financiar a campanha dos políticos.

 

Em termos ideológicos, muitas pessoas simplesmente suspeitam de um Governo que gaste muito. Reconhecem que a desigualdade é um problema e, por princípio, apoiam as políticas governamentais que dão educação e serviços de saúde de elevada qualidade, mas não confiam nem em políticos nem em burocratas. Aos seus olhos, os Governos são ineficazes e interesseiros no melhor dos cenários. E no pior, ditatoriais e opressivos.

 

Tudo isto começou a mudar com o crescimento das tecnologias digitais e da internet, mas em especial com o advento das redes sociais. Como mostrou o presidente norte-americano, Barack Obama, no ciclo eleitoral de 2008 – e foi seguido por Bernie Sanders e Donald Trump no ciclo actual – é agora possível financiar uma campanha muito dispendiosa sem "muito dinheiro".

 

Como resultado, há uma crescente separação entre o dinheiro e os incentivos políticos. Enquanto o dinheiro é ainda parte do processo político, a influência já não pertence em exclusivo às empresas e aos indivíduos ricos. As redes sociais permitem agora que grandes grupos de pessoas se mobilizem de uma forma que se assemelha aos movimentos políticos de massas de outras épocas. Estas plataformas podem ter reduzido o custo da organização política e, em resultado disso, e dada a dependência que os candidatos têm de dinheiro, tornaram-se num canal alternativo para angariar dinheiro.

 

Esta nova realidade está para ficar e independentemente de quem ganhou as eleições nos Estados Unidos, quem estiver descontente com uma elevada desigualdade vai ter uma voz, vai ter a capacidade de a financiar e o poder para afectar a criação de políticas. Também outros grupos que se focam em questões semelhantes, como é o caso da sustentabilidade ambiental, o que não foi um dos grandes focos da campanha presidencial nos Estados Unidos (os três debates entre os candidatos não abordaram as mudanças climáticas, por exemplo), mas certamente será no futuro.

 

Dito isto, a tecnologia digital está a mudar as estruturas económicas e a equilibrar as relações de poder nas democracias mundiais – mesmo em instituições que no passado pensaram ser dominadas pelo dinheiro e pela riqueza.

 

Um eleitorado maior e novamente influente seria bem-vindo. Mas não pode ser um substituto para uma liderança sábia e a sua existência não garante políticas prudentes. Enquanto são reequilibradas as prioridades políticas, temos de desenhar soluções criativas para resolver os nossos problemas mais difíceis e evitar uma má gestão populista. Espera-se que esse seja o caminho em que estamos.

 

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro

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