André Macedo
André Macedo 21 de janeiro de 2018 às 20:50

Como acelerar o fim de uma empresa

Em maio de 2014, no prospeto sobre o derradeiro e criminoso aumento de capital do Brasil BES, a administração de Ricardo Salgado anunciava o desejo de voltar a pagar dividendos aos acionistas talvez já esse ano.

Em maio de 2014, no prospeto sobre o derradeiro e criminoso aumento de capital do Brasil BES, a administração de Ricardo Salgado anunciava o desejo de voltar a pagar dividendos aos acionistas talvez já esse ano. Dois meses depois o banco era parcialmente enterrado e não se falou mais sobre tão exótica promessa.

 

A Portugal Telecom é outro exemplo: até ao grande final, deixou-se ordenhar generosamente pelos acionistas (dividendos de luxo), pelos gestores (prémios e salários de Ali Baba) e de novo pelos acionistas, neste caso através de empréstimos criminosos ao GES e ainda investimentos, sem fundamento ou racionalidade, em negociatas da Ongoing através do fundo de pensões da empresa.

 

A lógica é simples: acionistas que dão cobertura a equipas de gestão que se banqueteiam com o capital das empresas e que em troca avalizam o pagamento de dividendos irracionais — ao ponto de terem de pedir dinheiro emprestado para os conseguir pagar, porque os resultados não chegam, como aconteceu com os CTT, umas das empresas mais mãos-largas do PSI-20.

 

Portugal não é um caso isolado. Na Europa prevalece este pensamento de curto-prazo e canibalismo — crédito para pagar dividendos —, ao contrário do que, em regra, acontece nas companhias norte-americanas, basta ver a Apple e a Amazon. Por cá, aqueles que deveriam proteger a empresa (a gestão e os acionistas de referência), na prática revelam-se a sua maior ameaça. O colapso da Carillion, a construtora britânica que empregava 41 mil pessoas, deixou idênticas marcas de gestão ruinosa: não apenas pagou dividendos chorudos em 2016, quando a crise já era bem evidente, como bateu no peito ao sublinhar que os aumentara sempre nos últimos 16 anos. Sem mãos, sem pés... sem dentes.

 

O que está a acontecer nos CTT é apenas mais do mesmo, apenas com a particularidade ser mais evidente por causa da veloz degradação do serviço público, como este jornal noticiou com detalhe: sete parâmetros de qualidade abaixo dos objetivos em onze possíveis. O mais extraordinário é que, perante a pressão do governo, dos clientes e do regulador — e não dos acionistas de referência, claro, depois de mais um saque em dividendos... —, o único sacrificado foi o administrador financeiro da empresa, como se fosse ele o responsável pela estratégia.

 

A privatização dos CTT foi um erro político ou, pelo menos, uma jogada de alto-risco que expôs a empresa a uma degradação ainda mais rápida do que era suposto acontecer. O negócio das cartas está em queda acelerada, o das encomendas sofre com a concorrência — os contratos de alinhamento internacional quase não deixam os CTT entrar no negócio —, e o fraco mercado do comércio eletrónico português não é ainda alternativa. 

 

A questão, portanto, é a seguinte: a privatização tirou tempo de sobrevivência à empresa. A aposta (onerosa) num banco-postal quando o setor financeiro nacional ainda não levantou a cabeça, a política de dividendos ultra-agressiva e ainda a desmesurada remuneração  da administração... tudo isso queima dinheiro a uma velocidade impressionante. Pública ou privada a luta seria sempre difícil para a empresa de correios, isso deve ser reconhecido, mas o caminho seguido tornou-a numa companhia mais vulnerável do que era. Hoje os CTT já não seriam tão facilmente privatizáveis e isso diz tudo sobre o caminho seguido desde 2014. 

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