Michael Spence
Michael Spence 30 de agosto de 2017 às 13:53

Como explicar a recuperação mundial a meio de uma recessão política

A resiliência da economia mundial – pelo menos até agora – é ainda mais notável . Há várias explicações possíveis (e não mutuamente exclusivas) para este contra-intuitivo estado das coisas.

No Verão, à medida que a vida abranda, há espaço para reflectir sobre questões fundamentais. Recentemente, um dos principais quebra-cabeças presente na minha mente é a separação entre uma disfunção política generalizada e um desempenho económico e dos mercados financeiros relativamente forte.

 

Hoje, as principais economias mundiais vivem uma recuperação constante, apesar dos revés ocasionais. Para ser claro, o desempenho económico está longe de alcançar o seu potencial total: dependendo para onde se olhe, podemos encontrar lacunas na produção, excesso de alavancagem, balanços frágeis, sub-investimento e obrigações não financeiras para as quais ainda não há financiamento. Ainda assim, os mercados financeiros não dão sinais de convulsão, mesmo com a retirada gradual dos estímulos monetários.

 

Ainda assim, ao mesmo tempo, as condições políticas parecem estar a deteriorar-se. A polarização intensificou-se devido, em parte, à resistência crescente à globalização e aos padrões de crescimento desequilibrados que resultaram disso. Por exemplo, nos Estados Unidos, o Pew Research Center revela que as pessoas não discordam veemente apenas dos seus compatriotas que têm ideias opostas às suas; não gostam deles nem os respeitam.

 

O impasse político, que durante muito tempo impulsionou a divisão esquerda-direita nos Estados Unidos, está agora incorporado dentro do Partido Republicano, que controla as duas câmaras do Congresso e a Casa Branca. Até agora, a administração do presidente Donald Trump só conseguiu exacerbar esta turbulência interna, enquanto não implementa nenhuma das mudanças de política económica, de que se estava à espera, e que poderiam elevar o investimento e o crescimento e impulsionar o emprego de qualidade. Apesar de ser difícil detectar nesta altura as prioridades da administração Trump, seria difícil argumentar que elas incluem um foco estreito e concertado em políticas desenhadas para fazer com que os padrões de crescimento sejam mais equitativos e sustentáveis.

 

O Reino Unido, no último Verão, votou para sair da União Europeia (UE), o que surpreendeu muitos. As preocupações aumentaram na UE quando a primeira-ministra, Theresa May, assumiu o cargo e se comprometeu a assegurar um "hard Brexit". Agora que os eleitores britânicos retiraram a May a sua maioria parlamentar, nas eleições gerais de Junho, o desfecho das negociações para a saída – e o destino do Reino Unido no pós-Brexit – tornou-se ainda mais incerto.

 

Os líderes europeus, bem como várias economias emergentes, concluíram que tanto o Reino Unido como os Estados Unidos são aliados e parceiros comerciais imprevisíveis e pouco fiáveis. A Ásia, liderada pela China, decidiu seguir o seu próprio caminho. A cooperação internacional, em áreas como a economia e a segurança, que nunca foi fácil, parece estar a desfazer-se.

 

Neste contexto, a resiliência da economia mundial – pelo menos até agora – é ainda mais notável (embora seja, claro, impossível saber qual o desempenho da economia num ambiente político mais estável). Há várias explicações possíveis (e não mutuamente exclusivas) para este contra-intuitivo estado das coisas.

 

Para começar, instituições estabelecidas limitam agora a capacidade dos líderes políticos e dos legisladores para influenciarem a economia. Ainda que estas instituições possam impedir a implementação de políticas positivas, elas servem também para minimizar o risco económico e de investimento.

 

Em particular, na frente internacional, os políticos não podem facilmente promover uma inversão imediata e dramática dos padrões da globalização que foram estabelecidos nas últimas décadas. Numa tentativa para o fazer – sem dúvida impulsionado pela intensificação das pressões populistas e nacionalistas – causariam danos económicos sérios, em última instância consumindo o capital político daqueles que lideram.

 

Outra possibilidade mais preocupante é que os riscos estejam a crescer mais rápido que a percepção dos mesmos. Se isto parece implausível, consideremos a crise financeira global de 2008, na qual uma regulamentação negligente e as assimetrias informativas levaram a um padrão de riscos que cresceram rapidamente e aprofundaram os desequilíbrios que, na maior parte das vezes, estão escondidos da vista.

 

No contexto actual, o efeito cumulativo das crescentes tensões geopolíticas, perda de confiança e desrespeito pelas instituições fundamentais, pode produzir ou um choque grande ou a deterioração das condições para o investimento. Mas é mais difícil construir cenários concretos do que ignorar os riscos potenciais que enfrentamos.

 

Dito isto, há uma explicação mais promissora, que eu subscreveria, com o risco de ser considerado um optimista irracional. A desigualdade de oportunidades, e os seus desfechos, impulsionou o descontentamento popular e a polarização política, que são muito reais e, depois de anos de negligência, estes dois aspectos estão a ter a atenção que merecem.

 

Mais atenção à coesão social não vai gerar resultados rápidos. Mas, com o tempo, pode ajudar a diminuir a intensidade partidária, ajudar a focar a atenção dos cidadãos nos valores comuns e restabelecer a capacidade dos seus líderes para deliberarem com responsabilidade e implementar políticas. Como sempre, vão existir desacordos – por vezes desacordos profundos – sobre como alcançar objectivos comuns. O fundamental é abordá-los num contexto de relativo respeito mútuo.

 

Este cenário está longe de estar garantido, mas não é de todo impossível. Apesar de tudo, a eleição de Emmanuel Macron, como presidente da França, o revés de May em relação ao "hard Brexit", a rejeição quase universal da posição da administração Trump sobre as alterações climáticas e sobre as regras básicas da ordem económica global, tanto dentro como fora dos EUA, sugerem um fortalecimento do centro político.

 

Entretanto, os enquadramentos institucionais nacionais e internacionais têm de continuar a proteger contra as acções destrutivas dos líderes políticos. Na análise final, a confiança na resiliência dessas instituições – e num eventual fim para a actual disfunção política – parece ser aquilo em que os mercados se estão a apoiar.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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