Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 27 de junho de 2017 às 19:58

Como fazer mais portugueses

O senhor Presidente da República não se cansa de repetir - por tudo e por nada - que nós, os portugueses, somos os melhores do mundo. Talvez. Mas, de certeza, seremos cada vez menos numerosos, se não se tomarem medidas sérias e rapidamente.

Em inércia, a decadência demográfica, já visível, ganhará uma aceleração imparável.

 

Parecendo preocupados com esta decadência, os senhores deputados lembraram-se de propor a alteração da lei da nacionalidade. Se os portugueses não fazem filhos de origem, facilitemos a adopção da portugalidade pelos estrangeiros que nos procuram.

 

Em princípio, nada contra. Só que tal método não é suficiente. Como insistimos em não harmonizar as regras de funcionamento da economia tal como os nossos parceiros mais evoluídos - as famosas e incompreendidas reformas estruturais -, não atraímos nem investidores nem trabalhadores em número suficiente para substituir os que de cá não se reproduzem.

 

Haverá que encontrar outra solução. O que proponho é eficaz, mas duvido de que seja aceite pelos decisores políticos, pois padece do mesmo defeito que os faz rejeitar as reformas estruturais: trata-se de poupar os neurónios a inventar soluções tão originais e ineficazes e, em seu lugar, adoptar o que realmente funciona bem com os nossos parceiros mais avançados.

 

Ainda assim, segue a sugestão.

 

Comecemos por olhar para as despesas públicas sociais de apoio à família no ano de 2013. Estas despesas ao contrário das restantes despesas sociais têm sofrido cortes relativos inaceitáveis. Elas representam apenas 1,2% do PIB contra 2,8% na Europa a 12. Pelo contrário, as despesas sociais totais já superam as da Europa a 12: Portugal com 26,6% e Europa a 12 com 25,5%. O peso dos encargos com a família nas despesas sociais totais é de apenas 4,7% em Portugal contra 11,3% na Europa a 12.

 

Nos últimos 20 anos, esta discrepância aprofundou-se, acompanhando a decadência demográfica que afecta o país.

 

A taxa de fertilidade em Portugal passou de 1,4 por mulher em 1995 para 1,3 em 2015. Na Europa a 12, a evolução foi inversa: 1,6 em 1995 e 1,7 em 2015. A evolução demográfica, entre 2015 e 2050, implícita nas actuais taxas de fertilidade, é a seguinte. Todos os países da Europa a 12 aumentam a sua população. Alguns países registam taxas elevadas: Suécia 30,1%, Noruega 27,1%, Irlanda 23,0%, RU 19,6 %. Portugal terá uma quebra de população de 12,1%.

 

Em 2040, teremos quase menos 1 milhão de pessoas. Em 2080, teremos perdido quase 3 milhões (mais de 1/4 da população actual); na Europa, tirando os países do Leste europeu, só Portugal, a Alemanha, a Itália e a Grécia perderão população. A Suécia que em 2015 tinha menos gente do que Portugal, ultrapassa-nos antes de 2020; em 2080, terá pouco menos do que o dobro da população de Portugal. A Áustria ultrapassa-nos nos primeiros anos na década de 2030. A Noruega, que tem agora metade da população portuguesa, terá em 2080 apenas menos 40.000 pessoas.

 

A situação demográfica na Europa reflecte bem a estrutura das despesas sociais.

 

A posição bastarda a que foi remetida em Portugal a política de apoio à família e à reprodução tem o seu reflexo na evolução demográfica do país.

 

O que parece funcionar bem na Europa, para estimular a natalidade, é o apoio generoso às famílias (sobretudo as mais pobres) e em especial às mães sozinhas. Isto faz-se sem receio e à custa de desincentivar a saída das mães do mercado de trabalho. (Em 2014, no Reino Unido, apenas 58% das mães sozinhas entre, os 15 e os 64 anos, estão empregadas; na Irlanda, o valor é 46 %. Em Portugal, atinge-se 70%.)

 

Como objectivo mínimo, para recuperar algum do tempo perdido, deveria ser objectivo da política social pública, num primeiro e imediato momento: multiplicar, pelo menos, por quatro as actuais despesas sociais de apoio à família até as aproximar de 5% do PIB. Este aumento de despesa deveria ser efectuado por troca com as rubricas da despesa social menos produtivas e mais desincentivadoras do trabalho, deixando a despesa social total constante.

 

Economista e professor do ISEG

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mais votado JCG 28.06.2017

Contas de merceeiro. E assim se esgota ou consome a inteligência nacional. É espantoso como estes opinadores formatados ideologicamente até à medula negligenciam sempre uma série de variáveis relevantes nas suas brilhantes análises. No caso, por exemplo, a anunciada substituição de uma elevada percentagem de trabalhadores humanos por robôs. Estou convencido de que se ainda cá andar daqui por uns 25 anos e se precisar que alguém me mude as fraldas, se calhar já vou ter o mordomo, ou governanta (ou criada) robótica que terei comprado num centro comercial qualquer.
Desde quando a quantidade de população de um país é um objetivo central? Objectivo central deve ser o de trabalhar para que cada um dos indivíduos que viva no país, sejam os portugueses residentes 11, 15 ou 7 milhões, um nível de vida digno.
O que é preciso é manter uma economia produtiva (mais que agora) por forma a que pelo menos o produto médio (PIB) por habitante, que hoje andam pelos 17 mil euros em média, não caia.

comentários mais recentes
Anónimo 28.06.2017

Algumas dúvidas Sr. Avelino de jesus:
Porque precisa Portugal de mais pessoas? Já agora porque precisa o planeta de mais pessoas? Já vamos a caminho dos 8000.000.000, Não chega?
já agora, a nascer no presente. 80 a 90 mil pessoas, como pensa criar igual nº empregos daqui a 20 anos todos os anos?

JCG 28.06.2017

Contas de merceeiro. E assim se esgota ou consome a inteligência nacional. É espantoso como estes opinadores formatados ideologicamente até à medula negligenciam sempre uma série de variáveis relevantes nas suas brilhantes análises. No caso, por exemplo, a anunciada substituição de uma elevada percentagem de trabalhadores humanos por robôs. Estou convencido de que se ainda cá andar daqui por uns 25 anos e se precisar que alguém me mude as fraldas, se calhar já vou ter o mordomo, ou governanta (ou criada) robótica que terei comprado num centro comercial qualquer.
Desde quando a quantidade de população de um país é um objetivo central? Objectivo central deve ser o de trabalhar para que cada um dos indivíduos que viva no país, sejam os portugueses residentes 11, 15 ou 7 milhões, um nível de vida digno.
O que é preciso é manter uma economia produtiva (mais que agora) por forma a que pelo menos o produto médio (PIB) por habitante, que hoje andam pelos 17 mil euros em média, não caia.

Anónimo 28.06.2017

Fico me perguntando em que vocês portugueses são melhores...?
Vivem a criticar outros países, mas não estão entre as melhores economia do mundo, falam, falam mas cadê a ação preventiva contra desastres? E que dizer da saúde? O que dizer dos políticos perfeitos que vocês tem?

FVV 28.06.2017

Olha lá? Ò Avelino.
Se primeiro explicasses como pode a malta subsistir sem trabalho, isso é que era de homem sabido. Agora questionar? Isso, qualquer asno o faz.

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