Anatole Kaletsky
Anatole Kaletsky 21 de janeiro de 2018 às 14:00

Como o Reino Unido pode mudar de ideias sobre o Brexit

David Davis, o tóri pró-Brexit que lidera agora as negociações para a saída, disse uma vez que "se uma democracia não pode mudar de ideias, deixa de ser uma democracia". O Reino Unido ainda é uma democracia e ainda pode mudar de ideias sobre o Brexit.

Será que 2018 é o ano em que o Reino Unido vai mudar de ideias sobre a saída da União Europeia? O senso comum diz que parar o Brexit é impossível. Mas o que dizia o senso comum sobre Donald Trump? Ou Emmanuel Macron? Ou sobre o referendo do Brexit? Em tempos revolucionários, os eventos podem passar de impossíveis a inevitáveis sem sequer passarem pela casa do improvável. O Brexit foi um evento desse tipo, e a sua reversão poderá ser outro.

 

Basta perguntar a Nigel Farage, antigo líder do Partido de Independência do Reino Unido, que de repente disse que o referendo sobre o Brexit de Junho de 2016 poderia ser anulado. "O lado do ‘Remain’ está a todo o gás", disse Farage aos seus companheiros do ‘Leave’. "Eles têm maioria no parlamento e, a menos que nos organizemos, poderemos perder a vitória histórica que foi o Brexit".

 

A escolha do Brexit e de Trump é muitas vezes descrita hoje como um resultado inevitável de factores socioeconómicos profundos, como a desigualdade ou a globalização. De certa forma, esta descrição está correcta. Eram expectáveis convulsões políticas de algum tipo depois da crise económica de 2008, como defendi durante anos.

 

Mas não houve nada de inevitável nas convulsões específicas que aconteceram. O Brexit, como Trump, foi um resultado contingente de pequenas perturbações no comportamento da votação. Se apenas 1,8% dos britânicos tivessem votado de forma diferente, o Brexit seria hoje uma piada já esquecida. Se a maioria popular de Hillary Clinton de três milhões de votos estivesse distribuída de forma diferente entre os estados, a frase "Presidente Trump" estaria tão distante como em Janeiro de 2016.

 

Para travar o Brexit este ano, têm de acontecer quatro mudanças igualmente pequenas no comportamento. A opinião pública deve mudar um pouco mais contra a decisão do Brexit, que já é vista como "errada em retrospectiva" por uma margem de 4%. Os políticos que, em privado, detestam o Brexit, devem falar em público. A oposição fundamentada às políticas governamentais deve ser novamente reconhecida como uma marca distinta da democracia, e não como um acto de traição. E a sensação de que o Brexit é inevitável deve ser dissipada.

 

Esses requisitos são interdependentes. Os políticos só falarão se sentirem a mudança da opinião pública; mas a opinião pública só vai mudar com uma liderança política credível. Os políticos remetem-se ao silêncio se toda oposição é marcada como antidemocrática. E se o Brexit parece inevitável, porque é que os eleitores se vão preocupar em pensar novamente?

 

A sensação de inevitabilidade, mostram os estudos de opinião, é o principal obstáculo a uma reversão. Cerca de 30% dos eleitores britânicos opõem-se à UE de forma tão intensa que sempre escolherão a saída,  independentemente dos custos económicos, assim como a "base" de Trump sempre apoiará o "seu" presidente independentemente da forma como ele se comporta.

 

Mas estes eurocépticos convictos nunca teriam ganho uma maioria, sem os cerca de 20% de eleitores que se importam pouco com a Europa, mas trataram o referendo como um voto de protesto. Muitos desses eleitores pouco convictos estão agora desapontados com o facto de o Brexit ter desviado as atenções das suas verdadeiras reivindicações ao nível da saúde, desigualdade, baixos salários, habitação e outros temas. No entanto, por essa mesma razão, querem a partida inevitável da Europa o mais rápido possível para voltarem ao normal.

 

Suponhamos agora que esses eleitores começam a acreditar que o Brexit, longe de ser inevitável, poderá nunca acontecer. Eles exigiriam que os políticos "parassem de insistir na questão da Europa" e começassem a resolver as preocupações reais das pessoas.

 

A sensação de inevitabilidade poderia ser dissipada pelas mudanças recentes na política interna do governo conservador e da oposição trabalhista.

 

O Partido Trabalhista começou a perceber que o seu único caminho possível de volta ao poder é a oposição ao Brexit. A análise detalhada dos resultados das eleições de 2017 mostrou que os ganhos inesperados do Partido Trabalhista deveram-se quase exclusivamente à grande afluência de eleitores jovens, cuja motivação era a esperança de travar o Brexit. Se não fosse por esses eleitores anti-Brexit, a primeiro-ministra Theresa May teria ganhado com uma grande vantagem, como muitos previam.

 

Se Jeremy Corbyn, o líder trabalhista, se torna agora "servo do Brexit", como disse Tony Blair, esquivando-se de uma oposição efectiva, esses novos eleitores sentir-se-ão traídos, o partido ficará dividido entre marxistas e centristas e as suas esperanças de ganhar uma eleição geral ficarão destruídas. Se, por outro lado, o Partido Trabalhista decidir lutar contra o Brexit, a opinião pública mudará rapidamente.

 

A oposição ao Brexit começaria a ser tratada como uma característica natural da política democrática. O Partido Trabalhista começaria a beneficiar dos erros de negociação do governo. E a sensação de inevitabilidade do Brexit desapareceria.

 

Isso, por sua vez, daria coragem aos conservadores pró-europeus. É pouco provável que os deputados tories votem contra a liderança do seu partido se a ausência da oposição trabalhista permitir que o governo vença de qualquer maneira. Se, no entanto, a oposição concertada do Partido Trabalhista criar uma possibilidade genuína de parar o Brexit, os deputados conservadores que colocassem o interesse nacional à frente da lealdade ao partido seriam elogiados pela sua coragem e não ridicularizados por insensatez. Poderiam até calcular que as suas próprias carreiras prosperariam se o seu partido se reconciliasse com a Europa.

 

Esta cadeia de eventos parece estar agora a começar. Em Dezembro, May perdeu a sua primeira batalha importante do Brexit, quando os deputados trabalhistas se uniram com 12 tories rebeldes para aprovar uma emenda que exige uma lei específica do Parlamento para aprovar o acordo negociado com a UE. Isto significa que qualquer plano para o Brexit que suscite uma oposição séria, seja de nacionalistas de linha dura ou de tories pró-europeus, poderá ser usada para desencadear um novo referendo. Na sequência deste avanço, a primeira campanha séria que visa explicitamente travar o Brexit, e não apenas mitigar os danos através de um acordo de divórcio "mais suave", será lançada no final deste mês.

 

Para ser bem-sucedida, esta campanha tem de convencer os ‘remainers’ desiludidos de que o Brexit não é inevitável. Tem de mostrar aos eleitores insatisfeitos que, independentemente dos seus problemas, o Brexit não é a resposta. Tem de convencer os políticos trabalhistas de que colaborar com o Brexit é um suicídio eleitoral e persuadir os rebeldes conservadores pró-UE de que uma rebelião não será inútil. Finalmente, será necessário que os líderes europeus declarem inequivocamente que o Reino Unido está legalmente possibilitado a mudar de ideias sobre a saída. Estes requisitos são desafiadores, mas não impossíveis.

 

David Davis, o tóri pró-Brexit que lidera agora as negociações para a saída, disse uma vez que "se uma democracia não pode mudar de ideias, deixa de ser uma democracia". O Reino Unido ainda é uma democracia e ainda pode mudar de ideias sobre o Brexit.

 

Anatole Kaletsky é economista-chefe e co-chairman da Gavekal Dragonomics e o autor de Capitalism 4.0, The Birth of a New Economy.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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Anónimo 21.01.2018

Um artigo com muitos ses. Se, se, se. Se o chamussas fosse confiavel nunca teria aceite governar sendo o segundo menos votado. Se o Bloco e o PCP tivessem vergonha nao pactuavam com esquemas, que na altura da vinda da troica diziam cobras e lagartos. Se o Passos tivesse rodeado de gente mais capaz tinha ganho as eleicoes. Se o Portas nao fosse um flop como Estratega de Estado tinha pelo menos desenhado a Reforma do Estado. Se o PS nao tivesse apostado, desde o tempo do socas, no marketing politico, eles estavam desmascarados. Se o Estado tivesse nas suas cupulas gente seria e capaz, o estado desempenharia a funcao de arbitro e supervisor da actividade financeira, economica, social, social, justica, etc. E nao o faz. Nao faz porque quem deve zelar nao quer saber disso e prefere olhar para os interesses proprios ou do partido. Com esta escolha do Brexit e a saida do mercado de 500 milhoes consumidores e de empresas, nao admira que se ponham os ses. Trump? Bobo da corte

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