Edson Athayde
Edson Athayde 28 de agosto de 2017 às 22:45

Como ser um bom liderado 

O empregado deu lugar ao funcionário e este ao colaborador. Firma evoluiu para empresa. Trabalho desaguou na linda palavra projeto. Do outro lado do balcão, o freguês transmutou-se em cliente. Os fornecedores tornaram-se parceiros.

Devo ter lido o primeiro livro sobre liderança aos 15 anos, ali por volta de 1980.

 

Na época, no Brasil, era diminuta nas livrarias a secção de publicações sobre gestão. O mesmo se passava com o marketing; na verdade a prateleira dos dois temas era a mesma, com meia dúzia de volumes.

 

Assim, passei 30 anos da minha vida profissional a ler "receitas de bolo" de como liderar bem, de forma justa, e agradar às minhas equipas.

 

Nunca foi fácil acompanhar as modas da liderança. Recordo que lá atrás bastava que não batesse nos funcionários ou apagasse cigarros nos seus braços e já teria uma quinta no céu dos empresários.

 

Com a ascensão do modo de se trabalhar do Silicon Valley, a coisa ficou bem mais exigente. Afinal, para ser um bom líder era preciso promover a alegria e a felicidade (como se as duas coisas fossem o mesmo) nos escritórios. Começou a era do gestor animador.

 

Até a terminologia se transformou. O empregado deu lugar ao funcionário e este ao colaborador. Firma evoluiu para empresa. Trabalho desaguou na linda palavra projeto. Do outro lado do balcão, o freguês transmutou-se em cliente. Os fornecedores tornaram-se parceiros.

 

Venho da Geração X. Os meus chefes eram "baby boomers", sem tempo nem paciência para afagos. Os líderes que eram descritos nos tais livros que eu lia eram pura ficção, eram unicórnios. Sentia-me azarado. Os chefes dos outros é que eram bons. Mal sabia eu que estava a ser doutrinado.

 

Quando ascendi profissionalmente, tentei por todos os modos fazer jus aos meus cargos, para não merecer que me rogassem pragas. Demorei a descobrir porque me sentia numa espécie de trabalho de Sísifo: quanto mais fazia mais parecia que havia para fazer, mais pessoas a agradar, ser mais e mais compreensivo, ser mais e mais companheiro, emotivo, altruísta, magnânimo.

 

Um belo dia, descobri o que estava errado. Não existe um ser humano como o descrito nos livros sobre liderança. Há quem se aproxime mais ou menos do ideal, mas perfeito ninguém é. Nem deveria tentar ser.

 

O certo é que a maior parte dos leitores dos livros sobre liderança são liderados em busca de conforto emocional: "Se a minha vida é uma desgraça é porque o meu chefe não presta."

 

Sim, é verdade, há mais chefes que não prestam do que o contrário. Mas também é certo que são poucos os que se perguntam como poderiam ser mais bem liderados.

 

Não confunda com "como ser graxista" nem com "como ser uma vaquinha de presépio". Ser um bom liderado não quer dizer anular-se enquanto indivíduo. Mas quer dizer, sim, como fazer mais para transformar em realidade os desafios lançados pelo líder. Com um pouco menos de mi-mi-mi, se possível.

 

Ou como diria o meu Tio Olavo, citando Peter Drucker: "As únicas coisas que evoluem por vontade própria numa organização são a desordem, o atrito e o mau desempenho".

 

Publicitário e Storyteller

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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