Michael Spence
Michael Spence 03 de Outubro de 2016 às 20:00

Como lutar contra a estagnação secular

A Europa, em particular, está a pagar um preço elevado por subutilizar a sua capacidade orçamental – uma decisão que tem sido conduzida pela impopular política da dívida e das transferências orçamentais.

Nos últimos anos, grande parte do mundo, em especial as economias desenvolvidas, tem estado atolado num padrão de crescimento do PIB lento e em declínio, fazendo com que muitos pensem se isto se está a tornar numa condição semi-permanente – apelidada de "estagnação secular". A resposta provavelmente é sim, mas a pergunta carece de precisão e, por isso, tem uma utilidade limitada. Apesar de tudo, há tipos diferentes de forças que podem suprimir o crescimento e nem todas estão sob o nosso controlo.

 

Para ser claro, é preciso destacar que muitos dos obstáculos que destroem o crescimento que enfrentamos actualmente seriam difíceis, senão impossíveis, de travar no curto prazo sem colocar em risco o crescimento e a estabilidade do futuro. O resultado destas condições persistentes pode ser apelidadas de "estagnação secular um" (ES1).

 

A primeira indicação que estamos a viver a ES1 está relacionada com a tecnologia. Se estamos, como argumenta o economista Robert Gordon, a experimentar um abrandamento na inovação tecnológica que melhora a produtividade, o crescimento potencial de longo prazo pode ser limitado. Mas mesmo que a inovação não caia muito, ou suba muito em breve, a adaptação estrutural e as mudanças comportamentais necessárias para se retirar vantagens e ganhos de produtividade vão exigir tempo.

 

A segunda condição que apoia a SE1 está enraizada no impacto que tem a incerteza elevada – acerca do crescimento, segurança no emprego, políticas e regulações e muitos outros desenvolvimentos que podem afectar qualquer um desses factores – quer no investimento quer em termos de consumo. As pessoas simplesmente não sabem se os seus Governos vão começar a registar progressos no que diz respeito ao combate à pressão da deflação, a travar o crescimento das desigualdades, a abordar a fragmentação política e social e restabelecer o crescimento económico e do emprego.

 

Com a procura futura longe de estar garantida, o investimento privado tem estado em queda em muitos países, incluindo e mais recentemente na China. O mesmo se passa com o consumo das famílias, em particular nas economias desenvolvidas, onde uma elevada percentagem do consumo é opcional (por exemplo, substituir os bens de consumo duradouros, viagens e comer em restaurantes). Por exemplo, tendo em conta o tempo que demorou à economia norte-americana recuperar completamente da Grande Depressão – até à Segunda Guerra Mundial, quando o Governo assumiu grande parte do lado da procura da economia – parece que uma reversão destas tendências não vai chegar em breve.

 

A terceira indicação de que estamos na ES1 é a dívida. Famílias, empresas, instituições financeiras e Governos, todos enfrentam restrições de balanço, o que faz com que pareça plausível assumir que estão a travar nos gastos e no investimento, aumentando assim as poupanças e contribuindo para um ambiente deflacionário mais amplo.

 

As acções com vista a apoiarem a desalavancagem e a ajustarem os balanços – tal como reconhecer perdas, recuperar activos e a recapitalização de bancos – têm benefícios de longo prazo mas custos no curto prazo. De facto, o ajustamento dos balanços exige tempo, em especial no sector familiar, e produzem uma inevitável resistência ao crescimento.

 

A imagem é de alguma forma sombria. Mas há mais nesta história, revelado por outra questão que é também mais precisa: há um conjunto de respostas políticas que poderiam, com o tempo, aumentar o nível e qualidade do crescimento? Neste caso, a resposta parece ser sim, sugerindo que estamos a enfrentar outro tipo de estagnação secular – chamada de "estagnação secular dois" – (ES2) – e isso é ditado por uma relutância ou incapacidade para implementar o 'mix' correcto de políticas.

 

Um elemento fundamental desse 'mix' de políticas estará focado em combater as crescentes desigualdades. As forças que impulsionam esta tendência – em particular, a globalização e o progresso da tecnologia digital – vão ser difíceis de combater. Ainda assim, os seus efeitos adversos podem ser mitigados através da redistribuição através de sistemas fiscais e de segurança social. À medida que as economias atravessam transformações estruturais prolongadas, os indivíduos e as famílias precisam de recursos para investir em novas competências.

 

Além disso, as políticas monetárias que têm vindo a suportar muito do fardo da recuperação desde a crise económica de 2008 têm de ser repensadas. O facto é que esses programas de taxas de juro muito baixas e elevados programas de "quantitative easing" [ou alívio quantitativo] não aumentaram suficientemente a procura agregada, muito menos diminuíram de forma adequada as pressões deflacionárias.

 

Mas subir as taxas de juro unilateralmente acarreta riscos sérios porque num ambiente de condicionamento da procura, elevadas taxas de juro atraem fluxos de capital e, por conseguinte, aumentando a taxa de câmbio e prejudicando o crescimento da parte transaccionável da economia. Posto isto, os políticos dos países desenvolvidos devem considerar impor alguns controlos nos capitais em balanço (tal como economias em desenvolvimento bem-sucedidas fizeram) – uma acção que iria facilitar abordagens mais independentes e personalizadas sobre como sair da repressão financeira.

 

Uma terceira prioridade devia ser fortalecer as respostas orçamentais, em especial no que diz respeito ao investimento no sector público. A Europa, em particular, está a pagar um preço elevado por subutilizar a sua capacidade orçamental – uma decisão que tem sido conduzida pela impopular política da dívida e das transferências orçamentais. Segundo as condições adequadas, os balanços das pensões e os fundos soberanos poderiam financiar investimentos.

 

Há muitas mais áreas onde os países podem precisar de considerar reformas. Entre elas, as políticas fiscais, a utilização de fundos públicos de forma ineficiente ou imprópria, impedimentos a mudanças estruturais em mercados de produtos ou factores e o desfasamento entre o alcance das instituições financeiras mundiais e a capacidade dos balanços soberanos para intervirem no caso de uma crise financeira.

 

A ES1 fará com que abordar a ES2 seja muito mais difícil. De facto, parece que nem mesmo respostas políticas domésticas e internacionais robustas são suficientes para eliminar o risco de a procura e o crescimento continuarem subjugados por um período alargado de tempo. Mas isto não é motivo para atrasar acções em áreas onde a política pode fazer a diferença. Tal como as nossas escolhas políticas no passado ajudaram a gerar o ES1 que enfrentamos hoje, falhar na implementação de políticas que visem combater o ES2 pode criar muitas mais situações difíceis e potencialmente insustentáveis amanhã.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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