Fernando Ilharco
Fernando Ilharco 29 de janeiro de 2017 às 20:30

Conseguir ou não conseguir

"Quando alguém pensa que é capaz ou que não é capaz, geralmente tem razão," comentou Henry Ford, fundador da Ford.

Nem a personalidade, nem a inteligência, e nem a empatia são fixas ao longo da vida, defende hoje a ciência. Embora a infância seja uma altura importante no desenvolvimento destas capacidades, não pode mais dizer-se que a modelação da personalidade ou da empatia não sejam influenciadas de modo relevante mais tarde, na adolescência e mesmo na idade adulta. A inteligência analítica, por exemplo, que durante tanto tempo se pensou ser inalterável, sabe-se hoje que pode mudar, e que muda frequentemente ao longo da vida, em função das exigências que cada um enfrente.

 

No entanto, a pessoa não é inteiramente maleável. Nem a evolução da sua personalidade, capacidades sociais ou analíticas estão inteiramente ao sabor do acaso. Sendo certa a complexidade do assunto, aquilo que cada um é e é capaz de fazer depende em boa medida da ideia que cada um tem de si mesmo, da sua noção de auto-eficácia: o que eu acredito, antes de pensar no assunto em causa, que sou ou não capaz de fazer. Não o que concluo depois de muita análise e ponderação; mas antes o que já penso sobre mim mesmo, o que assumo, as mais das vezes implicitamente, que sou capaz antes de analisar e ponderar.

 

Henry Ford, fundador da Ford, comentou um dia: "Geralmente quando alguém pensa que é capaz ou que não é capaz, tem razão." Este é o ponto decisivo: aquilo que acreditamos, sem mais. Tentar é bom, mas acreditar é mais importante; saber, genuinamente, que é possível é o decisivo.

 

Desta perspectiva, hoje em dia uma tendência relevante nas ciências comportamentais e comunicacionais defende que uma barreira importante ao que consigo fazer é o que eu penso que consigo fazer. A crença que tenho sobre como sou ou deixo de ser é um limite importante ao desenvolvimento da minha empatia, resiliência, inteligência ou jeito para isto ou para aquilo.

 

Claro que as condições genéticas, o ambiente cultural e social, as muitas voltas que a vida dá, fazem com que uns tenham mais jeito ou vontade para tocar piano, outros para matemática, outros para inovar ou liderar e motivar pessoas. Mas todos podemos ir mais longe; e muitos podem ir muito mais longe. 

 

No caminho que fazemos, no que gostávamos de conseguir, no que queremos conseguir ou no que vamos conseguir, a ciência aponta o papel importante da aprendizagem, da tentativa e erro e crescentemente da mentalidade e da auto-eficácia. Os limites de cada um estão muito nele próprio - e é bom pensar assim, porque não está tão errado quanto isso, porque leva mais longe e porque se tem uma vida recompensadora. Para isso é preciso fazer. Planear, sem dúvida; mas sobretudo fazer. Colocar na agenda e fazer. Aconselhou Johann Goethe, escritor alemão falecido há quase duzentos anos: "O que quer que queiras ou sonhes fazer, faz mesmo!"

 

Professor na Universidade Católica Portuguesa

 

Coluna semanal à sexta-feira, excepcionalmente é publicada hoje 

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