Selim Jahan
Selim Jahan 29 de outubro de 2017 às 14:00

Contar o que conta no desenvolvimento

O desenvolvimento humano equitativo requer que os responsáveis políticos prestem mais atenção à qualidade dos resultados, em vez de se focarem principalmente nas medições quantitativas da mudança.

Para a maioria das pessoas, a melhor forma de medir o "desenvolvimento" é pela quantidade de mudança – como ganhos no rendimento médio, na esperança média de vida, ou anos passados na escola. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um indicador compósito sobre o progresso nacional, que o meu gabinete no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento supervisiona, combina estas três estatísticas para classificar e comparar os países entre si.

 

O que muitos não entendem, porém, é que esta métrica, apesar de ser útil, não conta toda a história do desenvolvimento. Na verdade, para compreendermos o quão desenvolvido é um país, também precisamos de avaliar a forma como a vida das pessoas é impactada pelo progresso. E para compreendermos isso, temos de considerar a qualidade da mudança que está a ser reportada.

 

Quando os especialistas de estatística comparam países, precisam de dados que sejam comparáveis. Para comparar o grau de escolaridade, por exemplo, os investigadores contam o número de alunos matriculados em cada país, em proporção do número total de crianças em idade escolar (ainda que até isto possa ser um desafio em muitos países em desenvolvimento, onde a manutenção de registos nem sempre está padronizada).

 

Mas para avaliar a qualidade relativa do sistema educativo de um país, os investigadores teriam de determinar se os alunos estão efectivamente a aprender. Para obterem esses números, os estatísticos teriam de testar os estudantes em várias disciplinas, um projecto muito mais ambicioso do que a simples recolha de dados sobre a frequência escolar.

 

Os especialistas em estatística sempre reconheceram que comparar quantidades é muito mais fácil do que comparar a qualidade. Mas como as medidas existentes são tudo o que temos, os seus pontos fracos são frequentemente negligenciados no momento em que se classificam ganhos relativos ou se desenvolvem políticas, mesmo que o "progresso" medido segundo um determinado indicador não seja necessariamente genuíno. Se o mundo pretende atingir a paridade no desenvolvimento, é preciso mudar a forma como avaliamos e catalogamos a qualidade das iniciativas políticas.

 

Consideremos as estatísticas medidas pelo IDH - esperança de vida, educação e rendimento per capita. As estatísticas sobre a esperança média de vida sugerem que o mundo está a ficar mais saudável, e os dados mostram que as pessoas estão a viver mais do que nunca; desde 1990, a esperança média de vida aumentou cerca de seis anos. Mas a melhoria na qualidade de vida não foi assim tão significativa. Esses anos extra são acompanhados frequentemente pela doença e pela incapacidade - como a demência, que a Organização Mundial de Saúde estima que afecte 47,5 milhões de pessoas em todo o mundo.

 

Enquanto a esperança média de vida pode ser calculada com base nos registos de nascimento e óbito, os índices que medem a qualidade de vida, como as estimativas da OMS para os anos de vida ajustados em função da incapacidade, exigem quantidades consideráveis de informação sobre um grande conjunto de doenças e incapacidades em cada país. E, infelizmente, a dificuldade em recolher essa informação faz com que muitas bases de dados sobre a qualidade de vida estejam incompletas ou sejam compiladas com pouca frequência.

O cenário é semelhante no que respeita à educação. Não há dúvida de que o mundo está a fazer progressos no aumento do acesso ao ensino, e que nunca existiram tantas crianças matriculadas e a frequentar a escola. Mas como é que medimos as diferenças na qualidade do ensino? Cerca de 250 milhões de crianças de todo o mundo não adquirem competências básicas, apesar de metade desse número ter passado pelo menos quatro anos na escola. Não é surpreendente que, na maioria dos países, as escolas de bairros mais abastados tenham geralmente melhores instalações, professores mais qualificados, e turmas mais pequenas. Para resolver a desigualdade é necessário medir os resultados do ensino, em vez de as taxas de escolarização.

 

O Programa de Avaliação Internacional de Alunos (PISA) da OCDE, que se baseia em testes que não estão directamente relacionados com os programas escolares, constitui uma abordagem à realização de comparações entre países. Os resultados para 2015 traçam um quadro muito mais rico do desempenho do ensino nos países participantes, ao mesmo tempo que destacam grandes disparidades. Por exemplo, o PISA descobriu que "os estudantes socioeconomicamente desfavorecidos nos países da OCDE têm uma probabilidade três vezes maior de não atingirem competências de nível básico em ciências do que os alunos favorecidos".

 

Os dados sobre o emprego – essenciais para os responsáveis políticos prepararem o futuro - contam uma história semelhante. O Relatório do Desenvolvimento Humano de 2015 reconheceu que, à medida que o mundo evolui para uma economia do conhecimento, os trabalhadores menos qualificados ou marginalizados têm um maior risco de perderem os seus empregos, ao mesmo tempo que aumentam as oportunidades para a exploração do trabalho informal ou não-remunerado.

 

Para colocar isto em perspectiva, consideremos as projecções do emprego para a União Europeia, que antecipam a criação de 16 milhões de novos empregos entre 2010 e 2020. Mas no mesmo período prevê-se que o número de empregos disponíveis para as pessoas com menos formação diminua em cerca de 12 milhões.

 

"Nem tudo o que pode ser contado conta. Nem tudo o que conta pode ser contado", escreveu o sociólogo William Bruce Cameron em 1963. A sua máxima continua a ser verdadeira, embora no que diz respeita à medição do desenvolvimento humano, eu sugerisse uma ligeira alteração: "Nem tudo o que é contado, conta para tudo".

 

O desenvolvimento humano equitativo requer que os responsáveis políticos prestem mais atenção à qualidade dos resultados, em vez de se focarem principalmente nas medições quantitativas da mudança. Só quando soubermos de que forma as pessoas estão a ser afectadas pelo desenvolvimento é que podemos desenhar políticas que gerem as melhorias mais significativas para as suas vidas. "A intenção de vivermos o máximo possível não é uma das melhores intenções da mente", observou uma vez o autor Deepak Chopra,"porque quantidade não é o mesmo que qualidade".

 

Selim Jahan é director do Gabinete do Relatório de Desenvolvimento Humano e o principal autor do Relatório de Desenvolvimento Humano.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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