Neil Dwane
Neil Dwane 11 de setembro de 2017 às 11:08

Coreia do Norte aumenta temperatura geopolítica

A retórica entre os Estados Unidos (EUA) e a Coreia do Norte aumentou significativamente nos últimos meses, na sequência do teste do míssil balístico da Coreia do Norte, das suas ameaças ao território norte-americano de Guam e da detonação bem sucedida de uma nova bomba de hidrogénio.

Por seu lado, os EUA tentaram mobilizar anteriormente a ajuda da China para forçar a Coreia do Norte a cessar o seu programa nuclear. Apesar da pressão crescente por parte do Presidente Donald Trump, que anunciou possíveis sanções comerciais caso a China não se fizesse o seu melhor para ajudar, estes esforços parecem ter falhado. A China respondeu eventualmente mais energicamente, mas não possui nem o controlo, nem os meios para influenciar significativamente a Coreia do Norte. Nem pretende uma mudança de regime.

Claramente, a pressão está a crescer junto de todas as partes envolvidas – tal como estão os riscos de um erro de julgamento. Nem sequer existem soluções óbvias, como o risco de uma guerra nuclear é agora mais alto do que em qualquer outro momento desde o fim da Guerra Fria.


Ação militar teria um impacto sério nos mercados

Para as economias asiáticas, as consequências de qualquer tipo de ação militar seriam muito sérias. Poderia levar a uma cessação temporário do comércio global e a uma subida abrupta no dólar americano, que tende a ser a moeda-refúgio em todo o mundo durante as crises. Obviamente, dependendo da severidade e duração de qualquer conflito, os mercados de ativos da Coreia do Sul e do Japão sofreriam o maior impacto financeiro.


Muitas cadeias de valor das indústrias globais seriam igualmente afetadas por uma ação militar. A  Coreia do Sul é, por exemplo, um dos principais fornecedores mundiais de electrónica e componentes automóveis, e os volumes de produção poderiam ser afetados. A melhor evidência disso é o vasto impacto económico do desastre nuclear de Fukushima em 2011.


Com muitos mercados a pairar perto dos seus máximos históricos?e a confiança do consumidor no mínimo constante, qualquer conflito militar seria prejudicial ao sentimento e à confiança dos investidores. Um confronto de forças poderia ainda fazer com que os bancos centrais suavizassem a sua retórica até que se tornasse claro um desfecho.

Para antecipar o eventual deflagrar de uma guerra na península coreana, estamos atentos a três sinais-chave: (i) na Coreia do Norte, provavelmente o Governo realizaria exercícios de defesa civil, incluindo medidas de ensaio para abrir túneis subterrâneos e levar a elite de Pyongyang para locais seguros; (ii) na Coreia do Sul, a evacuação de familiares de militares dos EUA do país seria um sinal importante; e (iii) existe mais meio milhão de japoneses a viver na Coreia do Sul, e o Governo do Japão seria o primeiro a chamar os seus concidadãos a voltar a casa se a guerra parecesse provável.


Preocupações geopolíticas estão já a afetar os investidores
Se a Coreia do Norte continua a aumentar a temperatura geopolítica, é provável que a volatilidade de mercado suba mais. Porém, embora possa trazer algum pequeno conforto, os investidores preocupados com o atual contexto internacional devem saber que não estão sozinhos. Conforme concluímos num inquérito recente junto de mais de 750 investidores globais, a geopolítica é a sua principal preocupação.


A boa notícia é que as tensões geopolíticas atuais não são inéditas. Antigos máximos na incerteza política revelaram ser, na sua maioria, um bom momento para assumir a tomada de riscos numa carteira. Este ambiente deve beneficiar os gestores ativos que conseguem reagir à recalibração de ativos muito mais rápido do que índices passivos.

Da nossa parte, uma das tendências de investimento a que estamos atentos é a despesa em defesa. Desde a eleição de Trump, temos argumentado de forma consistente que o seu desejo de concentrar recursos mais nos EUA, do que nos seus aliados, vai forçar tanto os governos europeus como asiáticos a aumentar as suas despesas militares. A questão é que esse tipo de despesa leva tempo a materializar-se. É difícil identificar oportunidades adequadas de investimento quando a maioria dos programas de defesa – envolvendo processos complexos de adjudicação e aquisição de porta-aviões ou aviões de combate – levam anos a ser pedidos e construídos.


Não obstante, vamos manter-nos atentos a sinais de aumentos sustentados em despesas com defesa que poderiam ser favoráveis às empresas da indústria militar e seus fornecedores – independentemente se tal despesa torna ou não o mundo mais seguro.

Este artigo está em conformidade com o novo acordo ortográfico.

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