José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 30 de outubro de 2017 às 19:40

Crédito quê bê

O crédito bancário às empresas continua a cair em Portugal, o que já sucede desde 2011. Esta parece ser a evolução natural e até virtuosa para um país com tanta dívida empresarial como o nosso.

Não obstante, por vezes, a banca é acusada de orquestrar um racionamento do crédito com o objetivo de inflacionar as taxas de juro, em detrimento do financiamento do investimento e do crescimento económico. Se houve circunstâncias em que as críticas dirigidas à banca se justificavam, desta feita não me parece que a acusação seja pertinente: nem em relação ao racionamento do crédito, nem no que respeita à manipulação das taxas de juro.

 

De acordo com o Banco de Portugal, o crédito só está a cair entre as empresas de pior risco, ou seja, as que já entraram em incumprimento ou revelam forte probabilidade de vir a entrar. Que o crédito caia neste segmento é uma decorrência normal e inevitável do processo de correção do excesso de endividamento em que muitas empresas incorreram. O problema é que, em Portugal, a fatia de empresas nesta situação é grossa. Como por regra as empresas em dificuldades não conseguem repagar a dívida na íntegra, parte importante da quebra do crédito às empresas assume a forma de perda total ou parcial para os bancos. Daí que considerar que são os bancos a promover esta situação não faz qualquer sentido.

 

Se há segmentos e setores em crise, outros há que estão em expansão. Nesse caso, não deveria a dinâmica positiva do crédito das empresas saudáveis compensar a das problemáticas? Acontece que o crónico défice de capitalização do setor empresarial português requer a redução transversal da dívida e o aumento do financiamento do investimento efetuado através de capitais próprios. Tal circunstância reduz a procura por crédito das empresas.

 

Além dos entraves à expansão do crédito provenientes do lado da procura, existem restrições - exógenas aos bancos - do lado da oferta. À cabeça vem a tendência inexorável de desintermediação que está em curso na Europa e que assume várias formas: (i) recurso crescente das empresas de maior dimensão a emissões de dívida no mercado de capitais; (ii) presença cada vez mais assídua de operadores financeiros especializados, como fundos de capital de risco, no financiamento direto às PME; (iii) rápida expansão, ainda que a partir de uma base diminuta, das "fintechs" no financiamento a pequenas e microempresas. A segunda classe de restrições advém da explosão regulatória que, entre outras exigências adicionais, obriga os bancos a afetarem mais capital a cada operação, o que limita a capacidade prestamista dos bancos, sobretudo a empresas mais jovens ou de maior risco.

 

Quanto ao facto de a banca praticar taxas de juro superiores à média europeia é preciso lembrar que existem razões válidas para que isso aconteça. Desde logo porque os bancos lusos têm "ratings" inferiores aos da média europeia e, logo, custos acrescidos de financiamento, os quais tem de ser repassados nas operações de crédito. Numa lógica análoga, o elevado nível de endividamento do tecido empresarial português implica prémios de risco superiores, o que por si só gera uma discrepância entre as taxas de juros cobradas cá dentro e lá fora.

 

A banca cometeu erros no passado, é certo. Contudo, apreendidas as penosas lições da crise, os bancos têm hoje uma atuação muito mais próxima da sua função social: usar de uma política prudente de concessão de crédito, que minimize os riscos para a estabilidade financeira e contribua para a afetação correta dos recursos produtivos.

 

Chief economist do Millenniumbcp

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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surpreso Há 3 semanas

Que interessa a economia se vêm turistas?É preciso comprar carros e passear ,para alguns tentar a casa ,apesar dos preços.É tempo de cigarras