Dani Rodrik
Dani Rodrik 06 de novembro de 2017 às 13:48

Crescimento sem industrialização?

Os países africanos com baixos rendimentos podem manter taxas de crescimento da produtividade moderadas para o futuro, se tiverem melhorias sustentadas no capital humano e na governação.

Muitas das economias mais pobres têm estado bem apesar dos baixos preços das matérias-primas, das quais tendem a depender. O crescimento económico da África Subsariana abrandou precipitadamente desde 2015, mas isto é o reflexo de problemas específicos em três das suas maiores economias (Nigéria, Angola e África do Sul). As projecções indicam que a Etiópia, a Costa do Marfim, a Tanzânia, o Senegal, o Burkina Faso e o Ruanda vão alcançar um crescimento de 6% ou mais este ano. Na Ásia, o mesmo é verdade para a Índia, Myanmar, Bangladesh, Laos, Camboja e Vietname.

 

Isto são boas notícias mas também é algo desconcertante. As economias em desenvolvimento que conseguem crescer rápido e de uma forma sustentável sem dependerem de booms dos recursos naturais – como aconteceu com a maioria destes países durante uma década ou mais – fazem-no tipicamente através da industrialização orientada para as exportações. Mas poucos destes países são muito industrializados. A percentagem da manufactura em países da África Subsariana com baixos rendimentos está em geral estagnada – e em alguns casos está em queda. E apesar da muita conversa sobre o "Made in Índia", um dos lemas do primeiro-ministro Narendra Modi, o país apresenta poucos indícios de uma rápida industrialização.

 

A produção tornou-se numa escada poderosa para o desenvolvimento económico para os países com baixos rendimentos por três motivos. Em primeiro lugar, foi relativamente fácil absorver a tecnologia que vinha do estrangeiro e gerar empregos com elevada produtividade. Em segundo lugar, os empregos na manufactura não exigem muitas competências: os agricultores podem transformar-se em operários da produção em fábricas, sendo que para isso é preciso pouco investimento em formação adicional. E, em terceiro lugar, a procura pela manufactura não está limitada pelos baixos rendimentos domésticos: a produção pode expandir sem limite através das exportações.

 

Mas as coisas têm estado a mudar. Está agora bem documentado que a manufactura se tornou, cada vez mais, num sector de mão-de-obra altamente qualificada. Em conjunto com a globalização, isto fez com que seja muito difícil aos recém-chegados invadirem grandemente os mercados mundiais da produção e replicarem a experiência das superestrelas asiáticas da produção. Com excepção para um punhado de exportadores, as economias em desenvolvimento têm vindo a viver uma desindustrialização prematura. É como se a escada tivesse sido retirada aos países que estão atrasados.

 

Então como podemos explicar o boom recente de alguns dos países mais pobres do mundo? Estes países descobriram um novo modelo de crescimento?

 

Numa investigação recente, Xinshen Diao do International Food Policy Research Institute, Margaret McMillan, da Universidade Tufts, e eu olhámos para os padrões de crescimento deste novo conjunto de países com um desempenho elevado. O nosso foco está nos padrões das mudanças estruturais pelas quais estes países passaram. Documentámos um par de descobertas paradoxais.

 

Em primeiro lugar, as mudanças estruturais que promovem o crescimento têm tido uma importância significativa no que foi experienciado por estes países com baixos rendimentos, como a Etiópia, o Malawi, o Senegal e a Tanzânia, apesar da ausência de industrialização. O trabalho passou de actividades agrícolas de baixa produtividade para actividades de elevada produtividade, mas estas últimas são sobretudo na área dos serviços, não na produção.

 

Em segundo lugar, as alterações estruturais rápidas nestas economias foram aplicadas à custa sobretudo de um crescimento negativo da produtividade laboral nos sectores não-agrícolas. Por outras palavras, apesar dos serviços terem absorvido o novo emprego e terem dado sinais de uma produtividade relativamente elevada no início, a sua vantagem foi diminuindo à medida que foram expandindo. Este padrão contrasta profundamente com a experiência de crescimento clássica do Leste da Ásia (como é o caso da Coreia do Sul e da China), na qual as mudanças estruturais e os ganhos na produtividade laboral dos sectores não-agrícolas contribuíram fortemente para o crescimento total.

 

A diferença parece ser explicada pelo facto de a expansão dos sectores urbanos e modernos, nos recentes episódios de elevado crescimento, ser conduzida pela procura interna em vez de ser pela industrialização orientada para as exportações. Em particular, o modelo africano parece ser sustentado pelos choques positivos na procura agregada que são gerados ou pelas transferências do estrangeiro ou pelo crescimento da produtividade na agricultura.

 

Por exemplo, na Etiópia, os investimentos públicos em irrigação, transporte e electricidade produziram uma subida significativa na produtividade agrícola e nos rendimentos. Isto tem como resultado mudanças estruturais que promovem o crescimento, na medida em que um aumento da procura acaba por chegar aos sectores não-agrícolas. Mas a produtividade laboral não-agrícola é diminuída com um subproduto, na medida em que os rendimentos de capital diminuem e as empresas menos produtivas são atraídas.

 

Isto não é para minimizar a importância do rápido crescimento da produtividade na agricultura, o arquetípico do sector tradicional. A nossa investigação sugere que a agricultura desempenhou um papel fundamental em África não apenas por sua própria conta mas também enquanto motor de mudanças estruturais que levam a uma subida do crescimento económico. A diversificação para produtos que não são tradicionais e a adopção de novas técnicas produtivas podem transformar a agricultura numa actividade quase moderna.

 

Mas há limites até onde este processo pode impulsionar a economia. A saída de trabalhadores da agricultura é inevitável durante o processo de desenvolvimento devido à pouca elasticidade que as pessoas com baixos rendimentos têm para comprarem produtos agrícolas. A mão-de-obra que for libertada deve ser absorvida por actividades modernas. E se a produtividade não estiver a crescer nestes sectores modernos, em última análise, o crescimento económico vai estagnar. O contributo que a componente da mudança estrutural pode dar é necessariamente limitado se o sector moderno não tiver, ele próprio, um rápido crescimento da produtividade.

 

Os países africanos com baixos rendimentos podem manter taxas de crescimento da produtividade moderadas para o futuro, se tiverem melhorias sustentadas no capital humano e na governação. A convergência contínua com os níveis de rendimentos dos países ricos parece alcançável. Mas os indícios sugerem que as taxas de crescimento ocasionadas pelas mudanças estruturais rápidas são excepcionais e podem não durar.

 

Dani Rodrik, é professor de Economia Política Internacional na John F. Kennedy School of Government de Harvard, e é o autor do livro Economics Rules: The Rights and Wrongs of the Dismal Science.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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mais votado Anónimo Há 1 semana

Ao contrário da situação nos países ricos e desenvolvidos, o excedentarismo em países atrasados, cheios de pobreza, miséria e subdesenvolvimento, como na África Subsariana, é desprezável, ou um mal necessário, na medida em que como não existe um sistema público de segurança social nem outras estruturas do Estado de Bem-Estar Social, o excedentarismo acaba por cumprir, ainda que de forma parcial e muito limitada, as mais fundamentais e estruturantes funções sociais dos Estados de Bem-Estar Social já bem estabelecidos no Primeiro Mundo. No Primeiro Mundo, onde existem condições para criar valor do mais elevado quilate, mesmo com escassez de recursos naturais, o excedentarismo, nas organizações públicas e privadas, é um cancro económico e social que extrai valor do Estado, incluindo o Estado Social, da economia e da sociedade, tendo por isso que ser combatido sem piedade, a par com os flagelos da corrupção política, do compadrio e demais formas de cleptocracia instituída anti-mercado.

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Anónimo Há 1 semana

Repúblicas das Bananas como a Grécia e Portugal não tem credibilidade nem autonomia económico-financeira porque não tem tido políticas que permitam a criação, captação e fixação do melhor e mais adequado talento e capital disponível nos mercados globais de talento e capital. Sem flexibilização dos mercados laborais e fortalecimento dos mercados de capitais portugueses, Portugal nunca vai participar nas revoluções industriais como actor principal, secundário ou mesmo figurante. Será eternamente o expectador que chega ao evento sempre perto do acto final e por isso fica sem perceber o pouco daquilo que viu. África é já aqui.

Anónimo Há 1 semana

Ao contrário da situação nos países ricos e desenvolvidos, o excedentarismo em países atrasados, cheios de pobreza, miséria e subdesenvolvimento, como na África Subsariana, é desprezável, ou um mal necessário, na medida em que como não existe um sistema público de segurança social nem outras estruturas do Estado de Bem-Estar Social, o excedentarismo acaba por cumprir, ainda que de forma parcial e muito limitada, as mais fundamentais e estruturantes funções sociais dos Estados de Bem-Estar Social já bem estabelecidos no Primeiro Mundo. No Primeiro Mundo, onde existem condições para criar valor do mais elevado quilate, mesmo com escassez de recursos naturais, o excedentarismo, nas organizações públicas e privadas, é um cancro económico e social que extrai valor do Estado, incluindo o Estado Social, da economia e da sociedade, tendo por isso que ser combatido sem piedade, a par com os flagelos da corrupção política, do compadrio e demais formas de cleptocracia instituída anti-mercado.

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