António Cunha Vaz
António Cunha Vaz 11 de julho de 2017 às 09:00

Crise? Qual Crise?

A Geringonça tremeu. Será que sim? Mas foi só a Geringonça? Como é óbvio, esta é apenas mais uma teoria. O que conta, mesmo, é o que acontecer quando António Costa, o primeiro-ministro, decidir o que fazer com os restantes membros do Governo. Até agora apenas uns "ajudantes de ministros" se afastaram depois de terem sabido – ao que parece – o que um Ministério Público, que cada vez tem menos credibilidade, anunciou no dia de hoje.
Depois do horrível incêndio que tanta gente vitimou – assunto sério e gerido à boa maneira portuguesa –, depois do ridículo que é acontecer um assalto a um paiol de munições em Tancos, onde, ao que diz a comunicação social os militares guardavam as instalações sem munições nas armas em uso, não cai a ministra da Administração Interna, não cai o ministro da Defesa. A oposição vocifera, o Bloco e o PC fingem pedir explicações, Ana Gomes passa ao lado, Pacheco Pereira está a banhos mas nada acontece. Mestre na arte de bem gerir crises, António Costa segue para diante.

Um assunto menor acaba causando as primeiras vítimas entre os seus homens. O Futebol, que tantas alegrias deu faz agora um ano, vitima três secretários de estado e mais uns membros de gabinetes. Será justo? Em minha opinião, não! Não deviam ter aceite viagens? Talvez não. Mas confesso que não vi nisso nada mais do que uma atitude pouco prudente. Até porque a empresa visada na investigação é patrocinadora da selecção nacional de futebol, convida pessoas de relevo no país para a acompanharem, como sempre fez, e, mesmo no caso do titular dos assuntos fiscais – embora este devesse ter sido mais prudente que os restantes – as decisões que lhe cabiam tomar já estavam a caminho dos tribunais e, portanto, escapavam-lhe.

E como sai Costa desta crise? Mata a remodelação com a queda dos três secretários de estado? Com a saída de mais dois ou três? Se o conseguir fazer, é de mestre. O PSD e o CDS ficam caladinhos, pois também têm viajantes, embora sem funções governamentais, o Bloco e o PC, em nome da Geringonça, engolem em seco – a hipocrisia dos primeiros não é novidade. O Ministério Público acusou mais uns, entre tantos que acusa e para os quais acaba pedindo a absolvição, os meios de comunicação social enchem as páginas – e muito bem – com parangonas daquelas que o povo gosta e, no final do dia, a vida continua, António Costa continua a governar, a Catarina a berrar aos quatro ventos que ainda é do Bloco, o Jerónimo, genial, a manobrar nos bastidores.

Perguntam-me como se gere uma crise destas. Respondo: como António Costa o fez. Desta feita com algumas ajudas, mesmo que involuntárias, do PSD, do CDS, do Ministério Público – curiosa a quase coincidência da "informação ao mercado" sobre a constituição dos secretários de Estado como arguidos e a demissão destes.

Não sei quem é o mestre ou quem são os mestres. O Maestro é António Costa, delicadamente, desta feita, o director artístico não apareceu em palco, mas sentiu-se a sua presença. Quem é ele? Um doce a quem adivinhar.

Único aspecto negativo: perdem-se três excelentes membros do Governo, por um erro infantil, e, pelo menos, um excepcional adjunto de gabinete. Todos serviam o país com alto sentido de dever patriótico. Mas os melhores soldados sabem que podem ter que dar a vida pelo país. 

O autor é de centro direita e vota tradicionalmente CDS.

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