Fernando  Sobral
Fernando Sobral 08 de Novembro de 2016 às 19:43

Cristiano e o super-homem

Cristiano Ronaldo assinou pelo Real Madrid até aos 36 anos. Disse que este não será o seu último contrato: quer jogar até aos 41 anos. O que seria outro recorde ao mais alto nível.

Puskas deixou de jogar aos 39. Cruyff aos 37. Pelé aos 36. Ronaldo, através do combustível palpitante da sua vontade, quer concretizar a profecia do super-homem de Nietzsche. Ser aquele que, através de um processo contínuo de superação, supera o nihilismo e cria novos ideais, relativizando os velhos. Ao longo da sua carreira Ronaldo tem tido como meta ultrapassar todos os horizontes visíveis: golos marcados, vitórias existentes, troféus guardados. Ronaldo luta sempre contra ele próprio. É certo que tem uma sombra: Messi. Mas é essa competição que o faz ainda mais resiliente. Ronaldo é uma figura atípica na constelação portuguesa: só faz lembrar os marinheiros que queriam dar novos mundos ao mundo. Sem que conhecessem este. Tem mais que ver com o sonho da conquista da última fronteira. Com o culto do individualismo e hedonismo que desafiou a cultura da culpa que ofuscou a parte mediterrânica da Europa face ao calvinismo que se implantou a norte ou nos EUA.

 

Ronaldo não é uma figura típica de Portugal. Mas é-o do novo mundo do futebol, que o Real Madrid ou a Liga dos Campeões simbolizam. Onde o futebol passou a ser um Excel económico-desportivo, onde as emoções dos adeptos se cruzam com a sua afirmação como consumidores de um espectáculo que seja rentável. Ronaldo é, como Messi, o símbolo da filosofia que um dia Cruyff deixou no Barcelona: em vez de nos queixarmos, há que renunciar à épica do derrotado para construir uma outra, mais doce: a do ganhador. Ronaldo intui isso, mesmo que não o reflexione da forma que o fez Cruyff. Sabe que hoje já não é o jogador com a velocidade de outrora. E ainda busca o sentido posicional que lhe garanta ser letal sem o desgaste físico que já não suporta. Mas isso não o impede de ser um valor seguro para o Real Madrid. Porque hoje o futebol é, sobretudo, rentabilidade.

 

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