Cristina Casalinho
Cristina Casalinho 23 de outubro de 2017 às 20:34

Crónica rural

Os salários são baixos, as oportunidades de trabalho, escassas, e as qualificações, limitadas. Na semana passada, a minha casa ardeu.

Nasci no primeiro quartel do século XX numa aldeia em pleno Pinhal Interior. Em minha casa, uma tradicional casa de lavoura, existiam: juntas de bois, rebanhos, colmeias, hortas, vinhas, olival, carvalhal, pinhal. Enviuvei aos trinta anos, ficando com cinco filhos menores. Em casa, éramos cerca de vinte pessoas. À família constituída por duas mulheres e cinco crianças, somavam-se: o pastor, o rapaz dos bois, os empregados de dentro e de fora, a cozinheira, … Na época, era das poucas mulheres alfabetizadas da região e a única com direito de voto.

 

Vivíamos do que produzíamos. Vendia-se vinho, azeite, batatas, milho, mel, queijo, presunto. Peixe: comia-se duas vezes por mês, por altura do mercado quinzenal. Ao contrário da maioria das crianças da aldeia, que andavam doze quilómetros diariamente para ir à escola, os meus filhos, enquanto frequentaram a escola primária (único nível de ensino disponível), moravam com os tios numa casa próximo da escola. Contudo, ao invés dos primos que foram estudar para o Porto ou Coimbra, onde são médicos, advogados ou professores, os meus filhos não estudaram além do ensino primário.

 

Nos anos 40, muitos homens da aldeia emigraram para o Brasil ou África, deixando as famílias para trás. Nessa altura, começou a ser difícil encontrar mão-de-obra para o pastoreio e para algum trabalho agrícola mais duro. Abandonámos os rebanhos e reduzimos as áreas cultivadas. Nos anos 60, os meus filhos foram cumprir o serviço militar e não regressaram. Emigraram para os EUA. As minhas filhas casaram e vieram para Lisboa. A maioria dos homens e mulheres dessa idade emigraram para França ou Alemanha. A força de trabalho esgotava-se, implicando redução da área cultivada. Um dia, adoeci e rumei a Lisboa. Contratei rendeiros. A maioria das terras estava agora inculta. Nalguns casos mandei plantar pinheiros numa tentativa de assegurar algum rendimento. A renda paga pelos caseiros e o rendimento proporcionado pelo pinhal davam para viver.

 

Nos anos 70, anualmente, regressava à aldeia no verão com os netos. Nessa altura, ainda não havia eletricidade ou água canalizada. Havia um único telefone público e tinha de pedir-se a ligação à central na Lousã. Os jornais de Lisboa ou do Porto demoraram alguns dias a chegar. Um ritmo diferente e os miúdos divertiam-se com a entrada na máquina do tempo. Cada vez havia menos azeite, mel, ou vinho. E o rendimento do pinhal encolhia. Deixava de haver resineiros.

 

Nos anos 80, veio finalmente a estrada alcatroada, a eletricidade, e a água canalizada. Passei a receber uma pensão. Nessa altura, os caseiros já estavam demasiado velhos para trabalhar. Os terrenos estavam incultos e as hortas, próximo dos limites urbanos, foram sendo abandonadas, dominadas por silvas e mato. Os caminhos deixaram de ser trilhados. Os poços ficaram destapados. Nos anos 90, cansada dos incêndios frequentes, decidi vender os terrenos às empresas de celulose ou de produção de energia eólica. Deste modo, obtive algum rendimento.

 

No presente, a população da minha aldeia deixou de encolher. Porém, a maioria dos aldeões tem mais de sessenta e cinco anos e os seus rendimentos mensais são inferiores ao salário mínimo nacional. A reduzida população jovem trabalha em serviços ou indústria ligeira. A floresta ou a agricultura não são a sua vida. Os salários são baixos, as oportunidades de trabalho, escassas, e as qualificações, limitadas. Na semana passada, a minha casa ardeu.

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alblopes Há 3 semanas

O Cristina:como é que ainda estás ao serviço desta geringonça? Tu, que bem conheço, uma pessoa com princípios! Como é possível que ainda consigas ver o indiano como teu patrão? Assume-te, miuda! Tu vales mais do que esta caterva de energúmenos que estão a destruir o País e as gentes boas que ainda aqui moram! Um abraço!