Michael Spence
David Brady
Michael Spence | David Brady 11 de maio de 2017 às 14:00

Cumprir as promessas feitas à classe média

O actual plano económico da administração Trump pode ser pró-crescimento, mas é incompleto em termos de inclusão. Mudanças na política comercial não podem estar dependentes do reequilíbrio dos padrões de crescimento a favor das famílias com rendimentos baixos ou médios.

O presidente dos Estados Unidos deve a sua vitória eleitoral em grande medida à velha classe branca e aos eleitores da classe trabalhadora que perderam muitos dos benefícios com o padrão de crescimento económico das últimas três décadas. Ainda assim, esta administração está a preparar-se para perseguir um programa económico que, ainda que seja positivo em alguns aspectos, não vai provocar a mudança na situação económica que foi prometida aos eleitores. 

 

Trump deu voz a um grupo de eleitores que há muito foi forçado a enfrentar um agravamento das perspectivas de trabalho ou mesmo um declínio dos rendimentos reais – tendências que aceleraram desde o ano 2000. À medida que o número de empregos para a classe média caiu, o grupo de pessoas com rendimentos médios diminuiu, exacerbando a polarização dos rendimentos. O fenómeno, apesar de ser particularmente severo nos Estados Unidos e no Reino Unido, pode ser visto, de várias formas, um pouco por todo o mundo desenvolvido.

 

Os desafios económicos que a classe média dos países desenvolvidos enfrenta são o resultado de dois factores: a perda rápida dos trabalhos na área administrativa e na produção para a automatização e a transferência dos trabalhos com baixo e médio valor acrescentado para países com custos laborais mais baixos. O último padrão deprimiu os rendimentos e o crescimento dos salários não apenas no sector transaccionável mas também no sector não transaccionável dos serviços, devido às repercussões da deslocação do trabalho.

 

O resultado foi um excedente nas condições de trabalho das pessoas que têm rendimentos médios e médio-baixos, não diferente do excedente de trabalho nos países em desenvolvimento, numa primeira fase, que suprime o crescimento do rendimento (por um período de tempo) mesmo com a economia a expandir. Uma queda do poder de negociação dos trabalhadores e a diminuição do salário mínimo real pode também ter contribuído para uma polarização dos rendimentos, embora estes sejam provavelmente factores secundários.

 

Apesar destes desafios que a classe média enfrenta estarem bem documentados, os líderes norte-americanos falharam em reconhecer a luta das famílias de classe média e falharam também em implementar contramedidas eficazes. Isto contribuiu para um sentimento crescente de desespero – em especial entre os homens – que se tem manifestado numa subida da não participação da força de trabalho, agravada por problemas de saúde, abuso de drogas, taxas de suicido elevadas e um sentimento anti-governo.

 

Os países que têm uma desigualdade económica elevada e crescente frequentemente enfrentam instabilidade política e uma disfunção política. À medida que os políticos se tornam erráticos, perdem credibilidade e ficam asfixiados pelo impasse, o crescimento sofre e as hipóteses de alcançarem uma inclusão de forma próspera diminuem. O resultado é um ciclo vicioso em que os governos percebem que é cada vez mais difícil fazer o que é necessário.

 

Mas a intervenção dos governos é crucial para resolver os problemas que os trabalhadores dos países desenvolvidos enfrentam hoje e que os mercados não podem abordar sozinhos. Seja através da renegociação de acordo comerciais, investimento em infra-estruturas e em capital humano, ou facilitando a redistribuição, os governos têm de trabalhar de forma pró-activa para alcançar um reequilíbrio nos padrões de crescimento.

A administração Trump enfrenta agora pelo menos dois grandes desafios. O primeiro é conduzir o processo político para fora da polarização paralisante e ir em direcção à visão de um padrão de crescimento mais inclusivo e alcançável. O segundo desafio – condicionado pela concretização do primeiro – é responder às preocupações legítimas dos eleitores que ajudaram Trump a chegar à presidência.

 

Em relação ao primeiro desafio, os sinais até agora não são encorajadores. O processo eleitoral é essencialmente um jogo de soma zero para os participantes. Mas a governação não é um jogo de soma zero. Tratá-la dessa forma gera um impasse, uma fragmentação política e inacção, prejudicando os esforços para abordar os desafios críticos.

 

Para ser claro, os elementos da administração Trump apresentaram uma proposta de política económica que, se for implementada, certamente terá um impacto positivo. Por exemplo, com o apoio do Congresso dominado pelos Republicanos, a administração Trump podia finalmente pôr um fim ao suporte que a política monetária dá para apoiar o crescimento e o emprego.

 

Além disso, o investimento do sector público em infra-estruturas e em capital humano que Trump prometeu, se for devidamente orientado, elevaria os retornos – e por conseguinte os níveis – de investimento do sector privado. Uma reforma fiscal e regulatória daria um impulso adicional. Algumas renegociações de acordos comerciais e de investimento poderão também redistribuir os custos e benefícios da globalização, embora qualquer mudança deva ficar aquém do proteccionismo. E o impacto das políticas económicas da administração Trump provavelmente ia ser apoiado pela adaptação estrutural natural da economia ao desenvolvimento tecnológico.

 

Mas isto não vai ser suficiente para combater as forças que têm vindo a espremer os trabalhadores norte-americanos. Mesmo que a administração Trump consiga impulsionar o crescimento económico, ao diminuir o efeito "excedente laboral" e gerando empregos, o mercado de trabalho vai ter dificuldades para acompanhar. Numa era de transformação tecnológica rápida e profunda, os Estados Unidos precisam também de um compromisso forte dos sectores público e privado para ajudarem os trabalhadores a adaptarem-se.

 

Um primeiro passo útil seria aumentar, de forma significativa, o apoio à qualificação, requalificação e melhoria de qualificações. No seu livro Failure to Adjust, Ted Alden, membro do Conselho de Relações Externas, observa que os Estados Unidos gastam apenas 0,1% do seu PIB em requalificação, o que compara com os 2% que a Dinamarca gasta. E a Dinamarca e os seus homólogos nórdicos parecem ter-se saído melhor do que a maioria no equilíbrio dos imperativos como a eficiência, o dinamismo, a flexibilidade estrutural, a competitividade e a abertura económica com a necessidade de sistemas de segurança social que apoiem a adaptação para um ambiente laboral em mudança.

 

Além disso, vai ser necessária uma redistribuição dos rendimentos, de forma a permitir aos trabalhadores com rendimentos baixos investirem em si mesmos – o que é impossível quando estes trabalhadores têm apenas o suficiente para cobrir as suas necessidades básicas. Aqui, transferências de dinheiro condicionais, para a qualificação e aquisição de competências, poderia ser benéfica.

 

O acesso universal a uma educação de elevada qualidade é também crítico. Neste momento, em que uma parte do sistema educacional norte-americano falha, um resgate significativo do sistema privado e do resto fica para trás. Isto é individualmente racional, mas colectivamente insuficiente. De facto, sem uma educação de elevada qualidade em todos os níveis – desde a pré-escola até à universidade ou qualificação profissional equivalente – é quase impossível de alcançar com padrões de crescimento inclusivos.

 

Finalmente, a administração Trump deve repensar os cortes profundos propostos para a investigação fundamental, algo que pode prejudicar a inovação e o dinamismo económico no futuro. Ainda que erradicar programas menos promissores seja certamente aceitável, como é lutar contra interesses instalados, o dinheiro que é poupado deve ser redirecionado para áreas mais promissoras dentro da esfera da investigação fundamental.

 

O actual plano económico da administração Trump pode ser pró-crescimento, mas é incompleto em termos de inclusão. Mudanças na política comercial não podem estar dependentes do reequilíbrio dos padrões de crescimento a favor das famílias com rendimentos baixos ou médios. Eles podem mesmo representar um risco para o crescimento.

 

Michael Spence, laureado com o Prémio Nobel da Economia, é professor de Economia na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque, e conselheiro no Instituto Hoover. David Brady vice-director e conselheiro no Instituto Hoover e professor de Ciência Política na Universidade de Stanford.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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