José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 29 de janeiro de 2018 às 19:31

Da crise de Merkel à reforma de Macron

O mérito de Macron na promoção ativa da federalização da política orçamental europeia é inegável, como o é o de Merkel na sustentação passiva de um projeto político que nunca veria a luz do dia sem a sua chancela.

A FRASE...

 

"Merkel diz que não vê diferenças entre acordo SPD-CDU e propostas de Macron para a integração da Zona Euro."

 

Jornal Público, 19 de janeiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Merkel deverá permanecer chanceler mais quatro anos, cortesia do acordo dado pelo SPD à formação de um bloco central. A solidez da economia e a ausência de temas problemáticos na frente doméstica significam que o debate político na Alemanha está hoje centrado na vertente externa - imigração e reforma da UEM -, temas cuja resolução passa por um convénio com França e Itália. Acontece que tal entendimento não pode ser promovido por Angela Merkel porque foi ela quem mais resistiu à partilha dos custos de superação da crise das dívidas soberanas da periferia e foi, também ela, a proponente do acolhimento massivo de refugiados, que tanta perturbação gerou pela Europa fora.

 

Merkel foi a líder na crise, pelo que dificilmente poderia ser a timoneira na transformação do projeto europeu que se impõe perante os ventos nacionalistas que varrem com crescente intensidade e vastidão a Europa. Esta perda gradual de liderança poderia ter criado um impasse fatal se irresoluto. Mas eis que surge Macron com uma agenda de federalização da política orçamental europeia, que não sendo sua ideia original está rapidamente a granjear popularidade junto das principais forças políticas da Alemanha e até do partido antissistema italiano Cinco Estrelas, que deverá vencer as eleições legislativas de março próximo.

 

Naturalmente, este renovado ímpeto integracionista muito deve ao sobressalto existencial criado pelo Brexit e ao sentimento positivo que resulta da sólida recuperação económica em curso na UEM. Mas o mérito de Macron na promoção ativa da federalização da política orçamental europeia é inegável, como o é o de Merkel na sustentação passiva de um projeto político que nunca veria a luz do dia sem a sua chancela. Não foi diferente nos idos anos 90 com o projeto de federalização da política monetária. Nessa altura, os protagonistas foram Jacques Delors e Helmut Kohl. Mais uma vez o projeto europeu finta o seu destino, reinventando-se … até à próxima crise.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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Anónimo 30.01.2018

Hoje em dia a UE já faz transferências e concede ajudas e financiamentos aos Estados-Membros menos ricos e desenvolvidos. No futuro, com uma UE federal com um orçamento maior e mais competências políticas a nível federal, mais direitos (como mais transferências para os Estados e economias que têm menos, e mais e melhor cidadania europeia) implicarão ainda mais deveres (como reformas adequadas feitas na íntegra e de forma atempada) para cada Estado-Membro. Esses deveres, tantas vezes referidos por instituições como a Comissão Europeia, o FMI e a OCDE de forma quase informal e geralmente inconsequente, hoje em dia não são cumpridos. Com uma UE federal existirão meios e ferramentas para que as reformas, os deveres, avancem no seu tempo e Estados-Membros como Portugal e a Grécia não se desleixem e atrasem tanto por força dos seus políticos eleitoralistas mais irresponsáveis, dos seus sindicalistas chantagistas mais fundamentalistas e dos seus banqueiros criminosos mais extorsionários.