António Moita
António Moita 28 de janeiro de 2018 às 21:05

Da Google aos sonhos adiados  

Os números são assustadores. Cerca de 25% dos jovens europeus estão em risco de pobreza, 20% não têm emprego, o salário dos que o têm, normalmente precário, é inferior a 60% da média.

A escolha de Portugal, e mais concretamente de Oeiras, como destino de um importante investimento da Google é uma excelente notícia que chegou de Davos. Pelos valores envolvidos, pelo emprego qualificado que cria, pelo horizonte que apresenta aos mais jovens, pelo efeito de arrastamento que criará junto dos seus fornecedores e pela atratividade que despertará noutros operadores do setor das tecnologias. A decisão deste gigante mundial representa confiança no país e nas suas competências.

 

Mas Davos foi também palco para o lançamento de alertas muito sérios sobre o futuro da União Europeia no que respeita ao agravamento das desigualdades sociais, ao fosso geracional que se está a acentuar e ao risco de pobreza que se prevê para os mais jovens.

 

Os números são assustadores. Cerca de 25% dos jovens europeus estão em risco de pobreza, 20% não têm emprego, o salário dos que o têm, normalmente precário, é inferior a 60% da média. A partir de 2009, com a crise, a desigualdade de rendimentos entre os mais jovens e os maiores de 65 anos agravou-se muito uma vez que a austeridade incidiu mais sobre as medidas de proteção social do que sobre as pensões.

 

Este agravamento das desigualdades entre gerações, com um modelo social economicamente insustentável no futuro, é potencialmente gerador de insatisfação nas classes mais jovens e conduzirá ao acentuar de tendências populistas e extremistas ao nível político.

 

Os mais velhos, cada vez em maior número, contam porque votam. Os mais novos, cada vez em menor número, contam porque asseguram as contribuições financeiras para o sistema. É tempo de encontrar um maior equilíbrio entre estes dois mundos que progressivamente se vão afastando criando condições de sobrevivência digna para ambos.

 

Empresas como a Google alimentam os sonhos dos mais jovens e podem constituir bons exemplos para quem acredita que se chega à riqueza e ao bem-estar pela qualificação do ensino e do trabalho. Mas quantas Googles serão necessárias para contrariar a previsão de Christine Lagarde quando diz que, a continuar assim, esta deixará de ser uma "geração de sonhos adiados e passará a geração dos sonhos enterrados".

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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